segunda-feira, 4 de maio de 2026

Livro: A Epopeia do Colapso - Edson Moura

  


Capítulo 1 

A Cicatriz do Céu e o Silêncio da Rede 

    O ar na cela de concreto não era apenas denso; era uma suspensão palpável de poeira fina e humidade pegajosa, que se agarrava à garganta e aos pulmões com a persistência de um mal-estar crônico. Um cheiro rançoso e penetrante de mofo, misturado à acidez metálica de ferrugem e ao odor adocicado e fétido de desespero envelhecido, preenchia cada centímetro cúbico do espaço, impregnando as roupas, a pele, até mesmo os pensamentos. Elias Thorne, um homem cujos cinquenta e poucos anos haviam sido corroídos e envelhecidos prematuramente pela dureza dos últimos tempos, curvava-se sobre uma mesa improvisada. Ela era um monumento à precariedade, feita de tábuas de madeira apodrecida, cujas farpas ameaçavam rasgar a carne a cada toque, e de pilhas cambaleantes de tijolos soltos, que vibravam sob o menor movimento. Sua figura era a de um profeta exausto de uma fé esquecida, um sacerdote de um culto à conexão que o mundo havia abandonado.

     Seus óculos, armados com hastes de arame dobrado e lentes opacas por arranhões profundos, escorregavam incessantemente pelo nariz afilado, deixando marcas vermelhas e irritadas em sua pele pálida. Gotas de suor frio, apesar do clima ameno, umedeciam os poucos fios ralos de cabelo que ainda se agarravam à sua testa alta, um lembrete constante da tensão que o consumia. Diante dele, uma carcaça de rádio antigo repousava, seu invólucro de plástico, outrora vibrante, agora rachado e desbotado por anos de exposição e negligência, parecendo um artefato de um mundo há muito extinto. Para Elias, aquele objeto quebrado não era apenas uma máquina; era um altar silencioso, o epicentro de sua última e mais teimosa crença: a crença na possibilidade de reconexão. 

   Os dedos de Elias, que em uma vida anterior deslizavam com a precisão cirúrgica de um virtuose sobre interfaces holográficas etéreas e painéis de controle imaculados de supercomputadores que     governavam redes continentais, agora tremiam levemente. A trepidação não era de fraqueza, mas de um esforço concentrado e frustrado ao manusear fios corroídos, de isolamento puído, e capacitores inchados, com suas superfícies metálicas manchadas pelo tempo e pela oxidação. A cada toque, o material granuloso e quebradiço se desfazia, liberando um cheiro de cobre oxidado e plástico queimado. Sua busca era por um sinal, não importava quão fraco ou distorcido fosse; qualquer ruído que pudesse, por um instante que fosse, perfurar o silêncio ensurdecedor e opressor que havia engolido o mundo inteiro. 

    Não era por entretenimento, um conceito alienígena e quase obsceno agora, nem por notícias – essas eram luxos há muito tempo esquecidos, relíquias de uma era de abundância e segurança. Não, sua motivação era mais primal, mais desesperada. Era por validação. Uma prova irrefutável, ainda que microscópica, de que, em algum lugar remoto deste planeta devastado, alguém ainda tentava, alguém ainda existia com um propósito maior do que a mera e brutal sobrevivência. Ele precisava saber que a humanidade não havia se rendido completamente ao caos, que a faísca da civilização não havia sido extinta, mas apenas obscurecida. Precisava de um eco, uma reverberação que confirmasse a existência de uma vontade coletiva, de um futuro possível além da miséria presente.

     Lena, sua filha, aos dezesseis anos de idade, sentava-se num canto mais escuro do abrigo, aninhada sobre um emaranhado de cobertores esfarrapados e remendados, onde cada dobra contava uma história de noites geladas e abrigos temporários. Ela o observava com a gravidade quieta que, ao longo dos últimos anos infernais, havia se tornado sua segunda pele, uma armadura invisível forjada na dor. Seus olhos, que em tempos imemoriais, antes da Grande Queda, haviam transbordado da curiosidade vivaz e da espontaneidade luminosa da adolescência, agora eram poços profundos de pragmatismo endurecido e uma vigilância constante, uma sombra de desconfiança sempre presente. Não havia espaço para devaneios em seu olhar, apenas a fria análise do ambiente e a avaliação silenciosa de ameaças. 

    Com movimentos metódicos e precisos, ela polia uma faca de caça, sua lâmina cega mas robusta, com um pedaço de couro gasto e escuro. O som suave e rítmico do atrito do metal contra o couro era um contraponto quase hipnótico à respiração ofegante e tensa do pai, uma batida constante que pontuava o silêncio que os envolvia. Não havia palavras trocadas entre eles, não havia necessidade de preencher o vazio com banalidades. O silêncio que pairava sobre eles era preenchido por uma compreensão mútua que transcendia a linguagem, uma complexa teia de gestos sutis, olhares carregados de significado e uma telepatia silenciosa, todos forjados e temperados na fornalha do Grande Desmantelamento. Eles eram sobreviventes, e essa experiência compartilhada os unia de uma forma que poucas famílias já haviam conhecido. 

O sol pálido do fim da tarde, um disco esmaecido e sem calor, esgueirava-se por uma fenda irregular na parede de concreto, uma cicatriz deixada por algum impacto antigo. Seus raios fracos, quase sem força, dançavam com a poeira suspensa no ar, criando padrões luminosos e efêmeros que pareciam estrelas cadentes ao contrário. Essa luz tênue, impiedosa em sua honestidade, revelava as marcas indeléveis do tempo e da privação que haviam esculpido seus rostos: a barba por fazer de Elias, uma tapeçaria desgrenhada de pelos grisalhos e escuros que ocultava parte de sua mandíbula outrora forte; as olheiras profundas e violáceas de Lena, contrastando com a palidez de sua pele, testemunhas de noites mal dormidas e vigílias constantes. Seus corpos eram mais magros, suas peles mais ressecadas, a vitalidade drenada por uma batalha contínua contra a escassez. 

    As paredes do abrigo, que em uma vida anterior e opulenta haviam sido os limites cinzentos e impessoais de uma sala de arquivos em um prédio de escritórios qualquer, agora eram revestidas com uma colagem heterogênea de páginas arrancadas de livros velhos e pedaços de papelão amassado. Cada folha, cada fragmento, era uma tentativa patética, quase comovente, de isolamento contra o frio implacável que, com a descida da noite, se infiltraria por cada fresta e rachadura, mordendo a carne e os ossos. Havia algo de quase sacrílego naquelas páginas de obras literárias e enciclopédias, outrora reverenciadas, agora reduzidas a meros isolantes térmicos, seus conteúdos esquecidos em favor da sobrevivência mais básica. 

    A fome era uma companheira constante, um nó apertado e persistente no estômago que moldava cada decisão, cada pensamento, cada passo. Não era um apetite passageiro, mas uma dor surda e onipresente que reverberava em cada célula do corpo. O jantar, eles sabiam, seria mais uma porção minúscula de grãos ressecados, cozidos em água suja filtrada, insípida e sem nutrientes. Talvez, apenas talvez, se a sorte, uma entidade caprichosa e rara neste novo mundo, sorrisse para eles, um punhado de larvas colhidas do solo úmido do lado de fora pudesse complementar a refeição, fornecendo um mínimo de proteína. 

    Mas Elias sentia uma culpa ainda mais profunda, um tipo de fome diferente, que roía suas entranhas com a ferocidade de um predador. Como ele, Elias Thorne, o renomado engenheiro-chefe de sistemas energéticos globais, o homem que havia projetado e supervisionado as redes complexas e interconectadas que moviam continentes inteiros, pôde falhar tão catastroficamente? A pergunta era um fardo, uma rocha esmagando seu peito. O Desmantelamento, ele lembrava com uma dor aguda, não havia sido uma explosão espetacular, uma guerra nuclear com cogumelos de fumaça e destruição instantânea. Não. Foi algo muito mais insidioso, muito mais terrível. Foi um sussurro de falhas, uma cascata silenciosa e inevitável de colapsos que se espalhou como um vírus maligno por cada nó da intrincada teia tecnológica que sustentava o mundo. 

    Ele fechou os olhos por um instante, e as imagens daquele tempo, sempre à espreita nas profundezas de sua mente, invadiram-na com uma força avassaladora. Não um flashback abrupto e caótico, mas uma névoa densa e pegajosa que se adensava gradualmente, trazendo consigo o cheiro metálico e acre de ozônio queimado, a sensação de impotência esmagadora e o ruído ensurdecedor de um mundo se desfazendo. Ele estava no epicentro, no centro de operações globais da GlobalNet, um bunker subterrâneo que prometia segurança e controle, agora transformado em um túmulo tecnológico. 

    O ar condicionado zumbia inutilmente, tentando combater o calor gerado por milhares de servidores superaquecidos. Elias estava cercado por telas que piscavam em um vermelho infernal, cada uma um portal para uma catástrofe em andamento. Alarmes estridentes, com seus tons agudos e dissonantes, gritavam em múltiplas línguas, cada um anunciando o fim de uma parte da civilização. Os gráficos de consumo de energia, que em tempos normais eram linhas suaves e previsíveis, dançando em uma harmonia perfeita de oferta e demanda, agora pareciam os traçados frenéticos e caóticos de um ataque cardíaco terminal, pulsando com a agonia de um sistema em colapso.

     "Estamos perdendo a rede do Leste Asiático, supervisor. Falha total em 73% dos nós de rede primários", uma voz robótica, assustadoramente calma e desapaixonada, ecoava pelos alto-falantes, contrastando brutalmente com o pandemônio visual. "Cascata de falhas na América do Norte, sistemas de backup offline. Reatores secundários em modo de segurança, mas sem resposta. Iniciando protocolo de desconexão de emergência, mas a propagação é global." 

    Elias se lembrava da sensação física de sentir o chão tremer sob seus pés, não por um terremoto geológico, mas pela magnitude da desintegração invisível, mas cataclísmica, que ocorria. Ele havia visto os relatórios, lido os estudos, alertado repetidamente sobre a fragilidade inerente da interconexão global, a perigosa dependência de um sistema tão complexo e sem redundâncias reais. "Nenhuma rede é grande demais para cair", ele havia dito em uma conferência internacional, suas palavras recebidas com risos condescendentes e olhares de desprezo por colegas que o consideravam um alarmista. Agora, a ironia era um veneno amargo na sua garganta, um elixir de culpa e arrependimento que ele era forçado a engolir a cada dia. Ele, que outrora era o arauto do progresso e da conectividade, tornou-se o testemunho vivo de seu fracasso.

     A primeira falha foi quase imperceptível, um piscar fugaz em uma subestação remota na periferia de um continente distante, um evento que, isoladamente, seria rapidamente corrigido. Mas, como um incêndio em floresta seca, alimentado por anos de negligência e sistemas sobrecarregados, uma série de microcortes de energia começou a dançar pelo globo, cada um sobrecarregando o próximo em uma sequência impiedosa, como dominós caindo numa cadeia interminável, acelerando de forma exponencial. Os sistemas de segurança, projetados com arrogância para conter falhas localizadas e isolar problemas, foram engolidos por uma maré incontrolável de eventos simultâneos, incapazes de distinguir entre um problema isolado e um ataque sistêmico. Eles sucumbiram sob o próprio peso, impotentes. 

    Quando a internet finalmente caiu, não foi com um estrondo apocalíptico, mas com um silêncio aterrorizante, como se o mundo inteiro tivesse, de repente, prendido a respiração. Não houve gritos, apenas o súbito vácuo de informação. As comunicações globais pararam, as finanças mundiais evaporaram, os transportes se imobilizaram, e tudo o que dependia daquele fluxo invisível de dados desmoronou em uma pilha de ruínas digitais. A complexidade que outrora era a glória da humanidade, agora era a sua condenação, o ponto de alavancagem para sua própria queda. O mundo, de repente, se tornou vasto e silencioso novamente, mas desprovido de sua inocência. 

    A culpa pesava sobre Elias não como uma nuvem passageira, mas como uma lápide de granito, fria e inescapável, esmagando-o sob seu peso invisível. Ele havia dedicado a vida inteira a construir e otimizar esses sistemas, a tecer a intrincada tapeçaria que unia a humanidade. Ele deveria ter previsto a fragilidade inerente, deveria ter feito mais para proteger a todos. Sua mente analítica, outrora uma máquina eficiente de encontrar soluções e prever falhas, agora estava presa em um loop infinito de "e se", um purgatório mental de arrependimento e autocrítica. E se ele tivesse insistido mais? E se tivesse alertado com mais veemência? E se tivesse encontrado uma alternativa? 

    A vida que ele havia prometido a Lena, uma vida cheia de oportunidades, de segurança, de progresso e de um futuro brilhante, havia se desfeito em pó entre seus dedos, substituída por esta existência brutal e incerta. A promessa quebrada era a maior dor, mais aguda que a fome, mais cortante que o frio. 

    Lena pigarreou, um som sutil e deliberado que o trouxe de volta ao presente, à realidade crua do cheiro de poeira e mofo, ao ar viciado do abrigo. Ela havia terminado de afiar a faca, e agora a lâmina, recém-afiada, refletia a pouca luz que entrava. Sua atenção estava voltada para a rachadura na parede, onde o céu noturno começava a se insinuar, pontilhado por estrelas que, antes da Grande Queda, eram invisíveis na cidade iluminada pela poluição luminosa. Aquele era o céu que os cobria, um manto de veludo escuro e profundo, sem a cicatriz luminosa da poluição, mas com a marca indelével da ausência de tudo o que fora. A ausência de aviões, de satélites, de luzes urbanas que pintavam o horizonte. Era um céu puro e terrível, testemunha silenciosa do colapso. 

    "Pai, o rádio?" A voz de Lena era baixa, quase um sussurro, mas carregada de uma expectativa que ela tentava disfarçar, uma fina camada de esperança que ela temia quebrar. Ela odiava a fragilidade da esperança. 

    Elias suspirou, o ar raspando em sua garganta seca, um som áspero. Ele queria mentir, para poupá-la, mas a honestidade era uma das poucas moedas que ainda possuíam. "Nada, querida. Apenas estática. Sons fantasmas de um mundo que não existe mais. Parece que a banda de rádio de ondas curtas está... morta. Como todo o resto." Ele tentou soar casual, tentou injetar uma nota de indiferença em sua voz, mas a frustração era uma dor aguda, um espinho fincado em seus ossos. Aquele rádio, um artefato da era anterior ao Desmantelamento, era sua última e mais desesperada esperança de encontrar um vestígio de uma voz amiga, um sinal de vida inteligente.

     Lena assentiu, sem surpresa. Ela havia aprendido a não esperar muito do mundo, a blindar-se contra a decepção. A expectativa era um luxo que o novo mundo, em sua brutalidade, não permitia. Mas, por um breve momento, um brilho de algo mais profundo e vulnerável apareceu em seus olhos, uma faísca de nostalgia e anseio. Ela se lembrava das histórias que Elias contava, sussurradas nas noites mais frias, histórias sobre a "Cidade-Refúgio Éden". Não era apenas uma cidade em suas narrativas; era uma lenda, um oásis mítico de ordem e segurança em meio ao caos reinante, um lugar onde a civilização ainda respirava, intacta. Elias falava dela com uma convicção que roçava a obsessão, um brilho obstinado nos olhos cansados que contradizia o realismo brutal e desolador do seu dia a dia. 

    "Você acha que Éden ainda existe, pai?" Ela perguntou, a pergunta flutuando no ar denso entre eles, carregada de um peso que ia além das palavras. Era uma pergunta sobre o propósito, sobre a razão de continuar. 

    Elias parou de mexer nos fios em suas mãos, seu olhar fixo em um ponto invisível além da parede, em um horizonte que talvez só existisse em sua mente. O silêncio que se seguiu foi preenchido com o peso de sua própria fé inabalável. "Tem que existir, Lena. Alguém tem que ter sobrevivido, alguém tem que ter mantido as coisas funcionando. A inteligência humana, a ordem, a capacidade de construir... não podem simplesmente desaparecer. Não pode ter sido em vão. Éden é a prova disso. Uma lenda, sim, mas lendas nascem de algo real, de uma necessidade profunda, de uma verdade essencial." Ele repetia isso, não apenas para ela, mas para si mesmo, reforçando sua própria convicção. Éden era sua bússola moral, o farol que o guiava na escuridão, o objetivo que o impedia de afundar completamente no pântano pegajoso e sem fundo da desesperança. Era a última fortaleza da racionalidade em um mundo que enlouquecera. 

    Lena, por sua vez, tinha uma relação mais complicada, mais ambivalente, com a lenda de Éden. Para ela, era uma promessa sedutora de normalidade, uma miragem cintilante de um tempo em que as coisas faziam sentido, em que havia comida farta e camas macias e risadas que não precisavam ser contidas ou abafadas pelo medo. Era a visão de banhos quentes, de livros não queimados para aquecer, de dias sem a sombra constante da ameaça. Mas a realidade da sobrevivência, com suas lições cruéis e inesquecíveis, havia ensinado a ela uma lição dura e dolorosa: confiar em contos de fadas, em promessas vazias, era perigoso. Era uma fraqueza que podia custar a vida. Seu pragmatismo a puxava firmemente para a terra dura e fria, enquanto a esperança teimosa do pai a empurrava para um horizonte incerto, um futuro que ela mal ousava vislumbrar. 

    Naquele dia, Lena havia se aventurado um pouco mais longe do que o usual em suas patrulhas diárias de busca por suprimentos. Uma intuição, ou talvez a crescente urgência da fome que apertava seus intestinos, a havia impulsionado para territórios menos explorados. A cidade, ou o que restava dela, era um cemitério colossal de concreto e metal retorcido, um testemunho mudo e assombroso da arrogância humana. Prédios, antes altivos e imponentes, agora estavam despidos de suas fachadas, suas entranhas expostas ao ar, como esqueletos gigantescos. Carros, outrora símbolos de liberdade e progresso, estavam empilhados como brinquedos quebrados em avenidas que um dia fervilharam de vida, de tráfego, de vozes. O cheiro de decomposição, de poeira e de ferrugem era o perfume oficial da metrópole morta.

     O silêncio era a característica mais assustadora, um silêncio tão profundo que parecia engolir qualquer som que ela tentasse fazer. Era quebrado apenas pelo vento uivando como um fantasma faminto através das janelas vazias dos edifícios e o farfalhar ocasional de algum animal pequeno, um rato ou um inseto, esgueirando-se entre os escombros. Seus passos eram cautelosos, seus olhos, treinados para escanear cada sombra, cada movimento, em busca de ameaças ou oportunidades. Ela se movia como uma predadora silenciosa em um ambiente onde cada esquina podia esconder perigo.

     Ela havia encontrado um supermercado abandonado, sua fachada de vidro quebrada e coberta de grafites ilegíveis. Lá dentro, era um esqueleto cavernoso de prateleiras vazias e retorcidas, latas enferrujadas espalhadas pelo chão, um monumento à abundância perdida. Entre os corredores, onde antes havia uma profusão estonteante de produtos de todas as cores e formas, agora só restava o odor rançoso e doce de produtos estragados, uma mistura de frutas apodrecidas, laticínios azedos e químicos de limpeza vazados, e a poeira que cobria tudo com um manto cinzento e uniforme. A luz que se filtrava pelas aberturas criava feixes que revelavam as partículas dançantes no ar, quase como uma visão de outro mundo.

     Mas Lena era boa em encontrar o que os outros ignoravam, o que passava despercebido aos olhos menos atentos ou mais desesperados. Sua paciência e sua capacidade de observar os detalhes eram suas maiores armas. Atrás de uma prateleira tombada, esmagada sob pilhas de revistas velhas e mofadas, com suas páginas coladas e ilustrações desbotadas, ela descobriu uma pequena caixa de atum enlatado, milagrosamente intacta, seu rótulo ainda visível, embora desbotado. Era uma vitória minúscula, quase insignificante para o mundo, mas para eles, era uma faísca, uma promessa. O peso da lata em sua mão era o de um tesouro inestimável. 

    Ao sair do supermercado, com a lata de atum firmemente guardada, ela notou um vestígio da vida anterior que a assombrou com uma pontada de dor. Uma vitrine de uma loja de brinquedos vizinha, com o vidro estilhaçado, mas, em seu interior, um ursinho de pelúcia intacto repousava, seus olhos de botão fixos num ponto distante, como se ainda esperasse por uma criança. Por um momento fugaz, a Lena de antes do Desmantelamento, a menina que adorava brinquedos e sonhava com um futuro brilhante e cheio de possibilidades, quase a alcançou. Uma onda de tristeza infantil a varreu, uma lembrança de inocência perdida. Mas a Lena de agora, a sobrevivente endurecida, apenas apertou a mandíbula, o músculo tenso sob a pele, e seguiu em frente, seus passos firmes e decididos.

     Não havia espaço para sentimentalismos no mundo deles. Ursos de pelúcia não te mantinham vivo.

     A visão daquele urso, porém, despertou nela uma memória quase esquecida, uma dor latente que ela havia enterrado profundamente. A mãe dela, antes do colapso, havia prometido um urso similar para seu aniversário. Um aniversário que nunca aconteceu, engolido pela catástrofe. A lembrança era um espinho, uma agulha fria de mágoa que perfurava sua resiliência. Ela balançou a cabeça, um movimento brusco, forçando a imagem e a dor para longe, empurrando-as de volta para o abismo de seu subconsciente. Lena se tornou forte porque não podia se dar ao luxo de ser fraca. O trauma estava lá, submerso, latente, mas ela o empurrava para o fundo, como se enterrasse um tesouro perigoso, ciente de que, se o desenterrasse, ele poderia consumi-la.

     "Consegui isso", ela disse, sua voz um pouco mais alta do que o sussurro anterior, tirando a lata de atum de dentro do bolso empoeirado de sua jaqueta, estendendo-a para Elias. A lata estava suja, mas visivelmente intacta.

     Elias pegou-a, os olhos arregalados, refletindo a luz trêmula da lamparina. A expressão em seu rosto era uma mistura de descrença e uma alegria quase infantil. "Atum? Lena, isso é... é um achado! Um verdadeiro milagre! Onde você..."

     "Supermercado abandonado, três quarteirões ao norte. Estava escondido, sob uma prateleira quebrada e um monte de revistas antigas. Ninguém mais teria notado", ela respondeu, observando o pai com uma pontada de orgulho discreto, uma satisfação silenciosa por sua eficácia. Cada pequeno sucesso, cada item encontrado, era uma faísca na escuridão, uma pequena vitória contra a inevitabilidade da escassez. 

    Ele sorriu, um sorriso raro e fraco que mal alcançava seus olhos cansados, mas que iluminava seu rosto com uma beleza fugaz. Aquele sorriso, tão frágil e tão raro, era a única coisa que ainda conseguia aquecer o coração de Lena, um raio de sol em seu mundo sombrio. Aquele atum, uma trivialidade em outro tempo, um item de prateleira que passava despercebido, era agora um banquete, um símbolo tangível da resiliência deles, da capacidade humana de encontrar vida, de nutrir a esperança, onde só havia morte e desolação. 

    Ao lado do rádio inerte, um lembrete constante de seu fracasso em se conectar, Elias começou a contar os grãos de lentilha que serviriam de base para a refeição. Cada um deles, um testemunho da escassez brutal que os regia, era colocado com reverência em uma panela improvisada. Ele pensou novamente em Éden. Não era apenas um lugar físico, uma cidade fortificada. Era um conceito, uma ideia que se recusava a morrer. A esperança de que a ordem pudesse renascer das cinzas do caos, que a inteligência humana pudesse prevalecer sobre a barbárie, que a civilização não fosse um mero acidente histórico. E, acima de tudo, era a promessa de um futuro para Lena, um futuro que ele sentia ter roubado dela. Éden era a redenção, a chance de cumprir sua promessa paterna. 

    Enquanto a noite se aprofundava, tingindo o céu de um azul-escuro quase roxo, e o frio, silencioso e penetrante, começava a morder a pele exposta, Elias olhou do rádio, um símbolo de sua ineficácia, para a cicatriz escura que o céu havia se tornado, e finalmente para o rosto de Lena, iluminado pela luz trêmula e dançante de uma lamparina improvisada, feita de um pote de vidro e óleo de cozinha rançoso. A chama fraca da lamparina lançava sombras longas e fantasmagóricas nas paredes, dando vida a figuras distorcidas.

     A lenda de Éden era uma chama fraca, sim, quase imperceptível em meio à escuridão avassaladora do mundo, mas ainda brilhava. Era o fio invisível que o puxava para frente, a única melodia que ele conseguia ouvir no silêncio ensurdecedor da rede global que havia se rompido. Era para lá que eles iriam. Era para lá que tinham que ir. Pois, sem essa esperança, sem esse destino, não restava nada além do pó e do frio do mundo em ruínas, a mera e inútil existência. A busca não era mais por um sinal efêmero no éter; era por um destino, um lugar, uma razão para viver, um legado de vida para sua filha, uma promessa de que o espírito humano, mesmo em seu ponto mais baixo, ainda poderia ascender.

Continua...

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terça-feira, 15 de novembro de 2016

45 Dias de Pânico Total! - Márcio Alves Ferreira

Uma frase resume este belíssimo e envolvente livro:

"Quando a esperança abandona a alma que você nem sequer supunha que possuía, o que toma conta do que resta de você, é o desespero, eis a angústia em sua forma mais mortal, assombrosa, pois nesta situação onde nem conseguimos raciocinar, chegamos à falência de todos os bons sentimentos. A partir daí, muitas vezes a demência poderá ser nosso único alivio e a morte quem sabe a única saída" 

Edson Moura (amigo e testemunha do autor)


Um livro comovente, de muita luta e superação, contado sempre em primeira pessoa, de maneira reflexiva, filosófica, psicológica, às vezes bem-humorada, mas sempre mantendo o teor autobiográfico. Foram dias terríveis, de um pesadelo que parecia nunca ter fim, e isto, por 45 dias de ataques recorrentes do Transtorno de Pânico. Chegando ao limite máximo do sofrimento humano, onde o autor relata, ter cogitado, no auge do desespero, a hipótese real de suicídio.

Sobre o autor:

Nasceu em São Paulo, Capital, onde viveu até o ano de 2015. Atualmente reside em Montanha-ES. Casado, pai de dois filhos. Formado em Psicologia, cursando especialização em Saúde Mental. 

Trabalhou durante quase três anos numa instituição que atende pessoas com deficiência intelectual. Atualmente exerce a profissão de Psicólogo no CREAS de Mucurici-ES (Centro de Referência Especializado de Assistência Social).

É um estudioso do comportamento e da mente humana. Leitor voraz de literatura. Amante da Filosofia. Escritor em Blogs e Facebook. Este é seu primeiro livro, mas já avisa: o primeiro de muitos outros.



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Elogio Ao Ócio - Bertrand Russel



Anos atrás me deparei com o livro “Elogio Ao Ócio”, do pensador britânico Bertrand Russel. O livro é uma compilação de textos escritos por Russel sobre assuntos como trabalho, educação, comportamento, etc. Ao que parece, está esgotado na editora Sextante, pois só pode ser encontrado em sebos.

Teve um impacto decisivo em minha vida. Russel é claro, lúcido, argumentador talentoso, capaz de expor as coisas sem fazer uso de retóricas desnecessárias e do estilo “entrecortado” e forçosamente hermético de alguns “filósofos” enganadores da modernidade.

O eixo central do livro é o texto que dá nome à ele: O Elogio Ao Ócio, disponível aparentemente completo aqui, com a ressalva apenas de leves deslizes de tradução que não comprometem em nada sua importância. Com a licença do hiperbolismo, é a única coisa que você precisa ler. Depois pode partir para outros.

Sei que muita gente não lê textos com mais de dois parágrafos. Sintomático. Outros tantos dispensam coisas longas justamente porque a jornada de trabalho e tudo que a envolve toma muito tempo e muita energia vital. Ironia. Parece claro que esta é uma das formas básicas de como o sistema age para manter as coisas como são: tentar retirar ao máximo do ser humano a possibilidade de se dedicar a reflexões que exijam mais do que uma rápida olhadela e uma informação curta, seca, “direta”. Neste sentido, aliás, os “princípios” do jornalismo são a manifestação mais flagrante. A mídia atua como o operário mais incansável do esquema.

Não pensar. Não ter tempo para refletir. Além disso: extirpar desde o nascimento a vontade, o tesão, o interesse, a curiosidade e a dedicação necessária para ultrapassar a mediocridade. Nos deixar confortavelmente anestesiados, acomodados, ignorantes. Cada vez mais. Fazer com que nos contentemos com pouco, muito pouco.

Russel destrói com uma mentira fulcral da sociedade: “o trabalho dignifica o homem”. Mostra como essa falácia histórica contribuiu (e contribui) para o estado das coisas. O texto, escrito no início dos anos 30, soa (infelizmente) atemporal. Podem alegar que o cenário analisado por Russel ainda se concentrava demasiadamente no trabalho físico, na produção de bens materiais, na incipiência da Revolução Industrial. Russel mostra, já naquela época, como a jornada de trabalho (que chegava a 15 horas para um adulto na Inglaterra) poderia ser convertida para 4 hs. Como nos concentrávamos excessivamente no frisson em produzir bens inúteis e dispensáveis.

Fato que muita coisa mudou de lá pra cá. Mas Russel acreditava que quanto mais as máquinas evoluíssem, quanto mais a tecnologia fosse capaz de contribuir para a substituição do trabalho pesado na indústria e demais setores, mais razões existiriam e mais a sociedade poderia caminhar para uma substituição deste tipo de trabalho e mentalidade. É indiscutível que, sim, houve avanços descomunais nesta área nos últimos 80 anos. Ao mesmo tempo em que o capitalismo tratou de manter o mesmo tipo de consciência e o mesmo tipo de jornada excruciante na “era da informação”. Daí a tristeza por constatar que o texto de Russel se mantém atual, presente. Que suas passagens possam falar tão forte e tão diretamente ao que vivemos hoje.

Selecionei alguns trechos essenciais do texto completo:

(…)

Uma das coisas mais comuns que se faz com a poupança é emprestá-la a algum governo. Considerando-se o fato de que a maior parte das despesas públicas de quase todos os governos civilizados consiste nas dívidas das guerras passadas ou na preparação de guerras futuras, quem empresta seu dinheiro ao governo acha-se na mesma posição do vilão que aluga assassinos de Shakespeare. O resultado líquido de seus hábitos econômicos é aumentar as forças armadas do Estado ao qual ele empresta sua poupança. Obviamente, seria melhor gastar o dinheiro, mesmo que fosse com bebida ou no jogo.

(…)

Antes de mais nada: o que é trabalho? Há dois tipos de trabalho: o primeiro, alterar a posição de um corpo na ou próximo à superfície da Terra relativamente a outro corpo; o segundo, mandar outra pessoa fazê-lo. O primeiro tipo é desagradável e mal pago; o segundo é agradável e muito bem pago. O segundo tipo é capaz de extensão indefinida: há não somente aqueles que dão ordens, mas aqueles que dão conselhos sobre que ordens deveriam ser dadas. Geralmente dois tipos opostos de conselhos são dados simultaneamente por dois grupos organizados; a isto se chama política. A habilidade necessária a este tipo de trabalho não é conhecimento dos assuntos sobre os quais são dados conselhos, mas conhecimento da arte da fala e da escrita persuasiva, isto é, da propaganda.

Na Europa, mas não na América, há uma terceira classe de homens, mais respeitada do que qualquer uma das outras classes de trabalhadores. Há homens que, pela propriedade da terra, podem fazer outros pagarem pelo privilégio de poderem existir e trabalhar. Estes proprietários de terras são ociosos, e, portanto se esperaria que eu os elogiasse. Infelizmente, a sua ociosidade se torna possível pelo trabalho de outros; de fato, seu desejo pelo ócio confortável é historicamente a fonte de todo evangelho do trabalho. A última coisa que eles desejariam é que outros seguissem o seu exemplo.

(…)

A técnica moderna tornou possível que o lazer, dentro de certos limites, não seja uma prerrogativa de uma pequena classe privilegiada, mas um direito distribuído equanimemente pela comunidade. A moral do trabalho é a moral de escravos, e o mundo moderno não precisa da escravidão.

(…)

A técnica moderna tornou possível diminuir enormemente a quantidade de trabalho necessário para assegurar as necessidades vitais para todos. Isto se tornou óbvio durante a Primeira Guerra Mundial. Naquele tempo todos os homens nas forças armadas, e todos os homens e mulheres envolvidos na produção de munição, e todos os homens e mulheres envolvidos com espionagem, propaganda de guerra ou escritórios governamentais relacionados com a guerra foram tirados de ocupações produtivas. Apesar disto, o nível geral de bem-estar entre assalariados não-qualificados do lado dos aliados era mais alto do que antes ou mesmo depois da Guerra. O significado deste fato era escondido pelas finanças: empréstimos fizeram parecer que o futuro estava nutrindo o presente. Mas isto, é claro, seria impossível; um homem não pode comer um pão que não existe. A guerra mostrou conclusivamente que, através da organização científica da produção, é possível manter as populações modernas em razoável conforto com uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno. Se, ao final da guerra, a organização científica que foi criada para liberar homens para as guerras e produção de munição fosse preservada, e as jornadas de trabalho fossem reduzidas para quatro horas, tudo teria ficado bem. Ao invés disto, o antigo caos foi restaurado, aqueles cujo trabalho era necessário voltaram às longas horas de trabalho, e o restante foi deixado à mingua no desemprego. Por quê? Porque o trabalho é um dever, e um homem não deveria receber salários proporcionalmente ao que produz, mas proporcionalmente à virtude demonstrada em seu esforço.

Esta é a moral do Estado escravista, aplicada em circunstâncias totalmente diferentes daqueles na qual surgiu. Não é surpresa que o resultado tenha sido desastroso.

(…)

A idéia de que os pobres devam ter lazer sempre foi chocante para os ricos. Na Inglaterra, no início do século dezenove, quinze horas era a jornada comum para um homem; algumas vezes crianças trabalhavam tanto quanto, e muito comumente trabalhavam doze horas por dia. Quando alguns intrometidos sugeriram que talvez estas horas fossem exageradas, foi-lhes dito que o trabalho afastava os adultos da bebida e as crianças da marginalidade. (…)

Se o trabalhador comum trabalhasse quatro horas por dia, haveria o suficiente para todos e não haveria desemprego – assumindo um moderado senso de organização. Essa ideia choca os abastados, porque eles estão convencidos de que os pobres não saberiam como usar tanto lazer. Nos Estados Unidos, os homens frequentemente trabalham longas horas mesmo quando estão bem financeiramente; tais homens, naturalmente, se indignam com a ideia do lazer para assalariados, exceto na forma do cruel castigo do desemprego; de fato, eles não gostam de lazer nem mesmo para seus filhos. Estranhamente, enquanto querem que seus filhos trabalhem tão duro que não tenham tempo para serem civilizados, eles não se importam que suas esposas e filhas não tenham absolutamente nenhum trabalho. A inutilidade esnobe, que em uma sociedade aristocrática se estende a ambos os sexos, é, sob uma plutocracia, confinada às mulheres; isto, entretanto, não a torna mais sensata.

O uso sábio do lazer deve-se conceber, é produto de civilização e educação. Um homem que tenha trabalhado longas horas a vida inteira fica entediado se se torna subitamente ocioso. Mas sem considerável quantidade de lazer um homem é privado de muitas das melhores coisas. Não há mais nenhuma razão para que a maior parte da população sofra dessa privação; somente um ascetismo tolo, geralmente paroquiano, nos faz continuar a insistir em excessivas quantidades de trabalho agora que não há mais necessidade.

(…)

Não tentamos fazer justiça econômica, de forma que uma grande proporção da produção total vai para uma pequena minoria da população, e boa parte dela simplesmente não trabalha. Devido à ausência de qualquer controle central sobre a produção, produzimos grande quantidade de coisas que não precisamos. Mantemos uma grande percentagem da população trabalhadora ociosa, porque podemos dispensar seu trabalho dando sobretrabalho a outros. Quando todos estes métodos se provarem inadequados, temos a guerra: colocamos muitas pessoas a fabricar explosivos, e muitas outras para explodi-los, como se fôssemos crianças que recém descobriram os fogos de artifício. Combinando estes mecanismos, somos capazes, com dificuldade, de manter viva a noção de que uma grande quantidade de trabalho manual intenso é o quinhão inevitável do homem comum.

(…)

O fato é que mudar corpos de lugar, ainda que em certa quantidade seja necessário à nossa existência, não é, em absoluto, um dos objetivos da vida humana. Se fosse, teríamos que considerar todo operador de britadeira superior a Shakespeare. Temos sido enganados neste aspecto por duas razões. Uma é a necessidade de manter os pobres aplacados, o que levou os ricos, for milhares de anos, a defender a dignidade do trabalho, enquanto cuidavam eles mesmos de se manterem indignos a este respeito. A outra é o novo prazer no maquinismo, que nos delicia com as espantosas transformações que podemos causar na superfície da Terra. Nenhum destes motivos tem grande apelo ao trabalhador real. Se se pergunta a ele o qual ele acha a melhor parte de sua vida, não é provável que ele dia: “Eu gosto do trabalho manual porque ele me faz sentir que estou fazendo a tarefa mais nobre do homem, e porque eu gosto de pensar o quanto o homem pode transformar o planeta. É verdade que o meu corpo necessitam períodos de descanso, que devo preencher da melhor forma possível, mas eu nunca fico tão feliz quanto quando chega a manhã e eu posso retornar ao trabalho duro do qual provém o meu contentamento”. Eu nunca ouvi trabalhadores dizerem este tipo de coisa. Eles consideram o trabalho como ele deve ser considerado, um meio necessário à sobrevivência, e é de seu lazer que eles obtêm qualquer felicidade que possam ter.

Há quem diga que, enquanto um pouco de lazer é prazeroso, os homens não saberiam como preencher seus dias se tivessem somente quatro horas de trabalho nas suas vinte e quatro horas do dia. Considerar isto uma verdade no mundo moderno é uma condenação de nossa civilização; as coisas nunca foram assim. Havia anteriormente uma capacidade de despreocupação e divertimento que foi de certo modo inibido pelo culto à eficiência. O homem moderno pensa que tudo deve ser feito pelo bem de alguma outra coisa, e nunca por seu próprio bem.

(…)

E A PARTE FINAL, RESUMO COMPLETO E PUNGENTE DO PENSAMENTO DE RUSSEL:
A noção de que as atividades desejáveis são aquelas que trazem lucro é uma inversão da ordem das coisas. O açougueiro que lhe fornece carne e o padeiro que lhe fornece pão são dignos de louvor, porque estão ganhando dinheiro; mas quando se saboreia a comida que eles forneceram, se é frívolo, a não ser que se coma somente para ficar forte para o seu trabalho. Falando de maneira geral, diz-se que ganhar dinheiro é bom e gastar dinheiro é ruim. Vendo que são dois lados de uma transação, isto é absurdo; poderia se dizer que chaves são boas, mas fechaduras são ruins. Qualquer mérito que haja na produção de bens deve ser inteiramente retirado da vantagem a ser obtida consumindo-os. O indivíduo, em nossa sociedade, trabalho pelo lucro; mas a finalidade social do trabalho se baseia no consumo do que ele produz. É este divórcio entre o indivíduo e a finalidade social da produção que torna tão difícil aos homens pensar claramente em um mundo no qual fazer lucro é o incentivo da indústria. Pensamos demais na produção, e de menos no consumo. Um resultado é que atribuímos muito pouca importância ao divertimento e à simples felicidade, e que não julgamos a produção pelo prazer que ela proporciona ao consumidor.

Quando sugiro que a jornada de trabalho deveria ser reduzida para quatro horas, não quero dizer que todo o tempo restante deveria necessariamente ser gasto em frivolidade pura. Quero dizer que um dia de trabalho de quatro horas deveriam ser suficientes para as necessidades e confortos elementares da vida, e que o resto de seu tempo deveria ser seu para usá-lo como achasse conveniente. É uma parte essencial em qualquer sistema social que a educação deva ser levada além do que normalmente é no presente e deveria por objetivo, em parte, prover gosto que iriam tornar um homem apto a usar o lazer inteligentemente. Não estou pensando aqui no tipo de coisa que seria considerada “intelectualizada”. Danças camponesas desapareceram exceto em remotas áreas rurais, mas os impulsos que levaram ao seu cultivo ainda devem existir na natureza humana. Os prazeres das populações urbanas se tornaram na maior parte passivos: ver filmes no cinema, assistir jogos de futebol, escutar rádio, e assim por diante. Isto resulta do fato de que suas energias ativas são totalmente gastas com o trabalho; se tivessem mais lazer, iriam aproveitar novamente os prazeres nos quais tem um papel ativo.

No passado havia uma pequena classe ociosa e uma grande classe trabalhadora. A classe ociosa desfrutava de vantagens para as quais não havia base em justiça social; isto necessariamente as fez opressivas, limitou sua simpatia, e levou à invenção de teorias para justificar seus privilégios. Isto fez diminuir enormemente a sua excelência, mas apesar disto elas contribuíram com quase tudo do que chamamos de civilização. Ela cultivou as artes e descobriu as ciências; escreveu os livros, inventou as filosofias, e refinou as relações sociais. Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria emergido da barbárie.

O método da classe ociosa sem deveres, entretanto, gerou enormes desperdícios. Nenhum de seus membros tinha que aprender a ser trabalhador, e a classe como um todo não era excepcionalmente inteligente. A classe podia produzir um Darwin, mas a ele se opunham dezenas de milhares de proprietários rurais que nunca pensavam em nada mais inteligente do que caçar à raposa e punir invasores de propriedades. No presente, espera-se que as universidades forneçam, de forma mais sistemática, o que a classe ociosa fornecia acidentalmente e como um subproduto. Isto é um grande avanço, mas tem certas desvantagens. A vida universitária é tão diferente da vida do mundo exterior que os homens que vivem no meio acadêmico tendem a ficar alheios das preocupações e problemas de homens e mulheres comuns; além disso, suas formas de se expressar é geralmente tal que rouba de suas opiniões a influência que elas deveriam ter no público em geral. Outra desvantagem é que nas universidades os estudos são organizados, e o homem que pensa sobre alguma pesquisa original provavelmente será desencorajado. As instituições acadêmicas, portanto, úteis como são, não são guardiãs adequadas para os interesses da civilização em um mundo onde todos fora de seus muros estão ocupados demais para objetivos não-utilitários.

Em um mundo em que ninguém seja compelido a trabalhar mais do que quatro horas por dia, todas as pessoas que possuíssem curiosidade científica seriam capazes de satisfazê-la, e todo pintor seria capaz de pintar sem passar por privações, qualquer que seja a qualidade de suas pinturas. Jovens escritores não precisarão procurar a independência econômica indispensável às grandes obras, para as quais, quando a hora finalmente chega, terão perdido o gosto e a capacidade. Homens que, em seu trabalho profissional, tenham se interessado em alguma fase da economia ou governo, serão capazes de desenvolver suas ideias sem a distância acadêmica que faz o trabalho de economistas universitários frequentemente parecer fora da realidade. Médicos terão tempo para aprender sobre o progresso da medicina, professores não estarão lutando exasperadamente para ensinar por métodos rotineiros coisas que aprenderam na juventude, que podem, no intervalo, terem se revelado falsas.

Acima de tudo, haverá felicidade e alegria de viver, ao invés de nervos em frangalhos, fadiga e má digestão. O trabalho exigido será suficiente para tornar o lazer agradável, mas não suficiente para causar exaustão. Uma vez que os homens não ficarão cansados em seu tempo livre, eles não exigirão somente diversões passivas e monótonas. Ao menos um por cento provavelmente devotará o tempo não gasto no trabalho profissional para objetivos de alguma importância pública e, como não dependerão destes objetivos para viver, sua originalidade não será tolhida, e não haverá necessidade de adaptar-se aos padrões estabelecidos pelos velhos mestres.

Mas não é somente nestes casos excepcionais que as vantagens do lazer aparecerão. Homens e mulheres comuns, tendo a oportunidade de uma vida feliz, se tornarão mais gentis, menos persecutórios e menos inclinados a ver os outros com desconfiança. O gosto pela guerra desaparecerá, parcialmente por esta razão, e parcialmente porque ele envolverá trabalho longo e severo para todos. A boa índole é, de todas as qualidades, a que o mundo mais precisa, e boa índole é o resultado de segurança e bem-estar, não de uma vida de árdua luta. Os métodos modernos de produção nos deram a possibilidade de bem-estar e segurança para todos; escolhemos, ao invés disso, ter sobretrabalho para alguns e privação para outros. Ainda somos tão energéticos quanto éramos antes do surgimento das máquinas; neste aspecto temos sido tolos, mas não há razão para continuarmos sendo tolos para sempre.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"O grande projeto"- Stephen Hawking


Por Edson Moura

Resumo do Livro:

O grande projeto e a filosofia


Stephen Hawking e Leonard Mlodinow abrem seu livro The Grand Design [O grande projeto] com uma série de perguntas profundas: Qual a natureza da realidade? De onde vem tudo isso? O universo precisa de um Criador? Então, dizem: “Tradicionalmente, essas são perguntas pertinentes à filosofia, mas a filosofia está morta. A filosofia não conseguiu acompanhar os desenvolvimentos modernos da ciência, especialmente da física. Os cientistas tornaram-se os portadores da tocha da descoberta na nossa busca pelo conhecimento”.

Diante do desaforo e do desprezo de uma declaração dessas, o filósofo profissional tem somente que revirar os olhos. Dois cientistas, pelo que tudo indica, com pouca afinidade com a filosofia, estão prontos para declarar como morta uma disciplina inteira e insultar seus próprios colegas de docência em filosofia no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e na Universidade de Cambridge — muitos dos quais, como Michael Redhead e D. H. Mellor, destacados filósofos da ciência — por supostamente não conseguirem manter o passo.

O filósofo profissional considerará o veredicto deles não apenas como espantoso desprezo, mas também como ultrajantemente ingênuo. O homem que alega não ter necessidade de filosofia é o mais apto a ser enganado por ela. Seria de esperar que a exposição que Mlodinow e Hawking fazem subsequentemente de suas teorias preferidas estivesse calcada em uma multidão de pressuposições filosóficas não investigadas, expectativa que, de fato, confirma-se. Eles defendem suas reivindicações acerca das leis da natureza, da possibilidade de milagres, do determinismo científico e da ilusão do livre-arbítrio apenas com a justificativa mais rala. É evidente que Mlodinow e Hawking estão profundamente comprometidos com as questões filosóficas.

O que não se esperaria é que, depois de declararem a morte da filosofia, Mlodinow e Hawking mergulhassem imediatamente na discussão filosófica sobre o realismo científico versus o antirrealismo. A primeira terça parte de seu livro não trata de modo nenhum de teorias científicas correntes; antes, é investigação sobre a história e a filosofia da ciência. Achei essa seção a parte mais interessante e impressionante de todo o livro. Deixem-me explicar.

Tendo separado a tarde da segunda-feira para ler Mlodinow e Hawking, passei a manhã deslindando um artigo acadêmico de Contemporary Debates in Metaphysics [Debates contemporâneos em metafísica], publicado por Blackwell, que trata de um ponto de vista filosófico conhecido como pluralismo ontológico. O pluralismo ontológico é uma visão de uma subdisciplina da filosofia cujo nome parece uma gaguice: metametafísica, ou, como às vezes é denominada, metaontologia. É filosofia no mais alto grau de abstração. A ontologia é o estudo do ser, ou do que existe — a natureza da realidade. A metaontologia está um ponto acima: ela investiga se as disputas ontológicas têm ou não sentido e qual a melhor maneira de resolvê-las.

O pluralismo ontológico defende que não há realmente respostas certas para muitas indagações ontológicas, como, por exemplo: objetos compostos existem? De acordo com o pluralismo ontológico, há várias maneiras diferentes de descrever a realidade, e nenhuma é mais correta nem mais exata do que a outra. Literalmente, não há realmente nenhuma importância em responder a essas questões. Portanto, caso se perguntasse: “A lua existe?”, o pluralista ontológico diria que a pergunta não tem nenhuma resposta objetiva. Não é verdade que a lua existe nem que a lua não existe. Simplesmente não há nenhuma verdade absoluta quanto se a lua existe ou não. O pluralismo ontológico é, portanto, uma visão radical defendida por um punhado de filósofos.

Imaginem, portanto, meu espanto ao encontrar Hawking e Mlodinow esposando o pluralismo ontológico (sem estarem cientes do nome) como a sua filosofia da ciência. Eles apelidam a perspectiva que adotaram de “realismo dependente de modelos” e explicam que modelos são apenas maneiras diferentes de interpretar nossas percepções sensoriais. Na visão deles, não existe realidade objetiva à qual nossos modelos de mundo correspondam mais ou menos com precisão (p. 7).

Mlodinow e Hawking, portanto, são antirrealistas ao extremo. Por exemplo, ao contrastarem o criacionismo da Terra jovem com a teoria do big bang, eles alegam que, apesar de a teoria do big bang ser “mais útil”, “não se pode dizer que um dos dois modelos é mais real do que o outro” (p. 51).
Não dá para deixar de imaginar que tipo de argumento justificaria a adoção de uma visão tão radical. Tudo o que Mlodinow e Hawking têm a oferecer é o fato de que, se fôssemos, digamos, habitantes de uma realidade virtual controlada por seres alienígenas, então não haveria como dizer se vivíamos em mundo simulado e, por isso, não teríamos razão para duvidar da sua realidade (p. 42). O problema com esse tipo de argumento é que ele não exclui a possibilidade de termos nesse caso dois modelos concorrentes de mundo — um dos alienígenas e o outro o nosso, e um dos modelos é verdadeiro e o outro é falso, mesmo que não consigamos dizer qual deles.

Além disso, o fato de nossas observações serem dependentes de modelo não significa que não tenhamos o conhecimento do modo de ser do mundo (tampouco significa que não existe modo de ser do mundo). Por exemplo, ao entrar em laboratório científico, o leigo poderia ver na bancada do laboratório a peça de uma máquina, mas não a veria como um interferômetro, já que lhe falta o conhecimento teórico para identificá-la. Um homem das cavernas, ao entrar no laboratório, não veria nem mesmo a peça de uma máquina sobre a bancada, já que lhe falta o conceito de máquina. Mas isso não ajuda em nada a solapar a realidade objetiva da percepção do técnico do laboratório de que há um interferômetro em cima da bancada.

Mlodinow e Hawking, não satisfeitos com o pluralismo ontológico, descem ao fundo do abismo quando afirmam que “não existe teste de realidade dependente de modelos. Consequentemente, um modelo bem construído cria uma realidade particular” (p. 172). Essa é uma afirmação da relatividade ontológica, a visão de que a própria realidade é diferente para pessoas que adotam modelos diferentes.
Se você for Fred Hoyle, o universo existe eternamente em estado permanente, mas, se for Stephen Hawking, o universo começou realmente com o big bang. Se você for Galeno, médico da antiguidade, o sangue não circula de jeito algum pelo corpo humano, mas, se for William Harvey, que descobriu a circulação, o sangue circula de fato. Essa visão parece maluca e torna-se ainda mais doida pela alegação de Mlodinow e Hawking de que o próprio modelo é responsável pela criação da sua respectiva realidade. É quase desnecessário dizer que essa conclusão não decorre da inexistência de um teste independente de modelos de como é o mundo.

Mas tudo isso é acessório diante do ponto mais importante. A questão principal é que, apesar da alegação de falarem como portadores científicos da tocha do conhecimento, aquilo em que Hawking e Mlodinow estão engajados para valer é filosofia. As conclusões mais importantes a que chegaram em seu livro são filosóficas, não científicas. Por que, então, declaram a filosofia morta e afirmam que, como cientistas, são os portadores da tocha da descoberta? Simplesmente porque isso lhes permite encobrir o amadorismo filosófico deles com a capa da autoridade científica e, assim, evitar a trabalheira de debater realmente seus pontos de vista filosóficos, em vez de apenas afirmá-los.

Por que o universo existe?

Em seu livro, Hawking e Mlodinow tentam responder a três perguntas que fazem a si mesmos no capítulo 1:

1. Por que existe algo em vez de nada?
2. Por que nós existimos?
3. Por que esse conjunto particular de leis e não outro?

Curiosamente, suas respostas a essas perguntas mostram-se muito breves. De fato, (2) embute-se em (1) e, por isso, não recebe sequer uma resposta à parte.

A resposta de Hawking e Mlodinow às perguntas (1) e (2) é apelo ao modelo “sem limites” da origem do universo, difundido por Hawking em seu livro A Brief History of Time [Uma breve história do tempo]. Nossos autores simplesmente expõem o modelo sem apresentar nenhuma comprovação dele, nem mencionam nenhum dos modelos que lhe são alternativos. Tampouco respondem à crítica de que o dito “tempo imaginário” esboçado no modelo é fisicamente ininteligível e não passa, portanto, de um “truque” matemático útil para evitar a singularidade cosmológica que aparece nas teorias clássicas do princípio do universo.

Ainda assim, a exposição deles não deixa de ser interessante com relação ao começo do universo. Por exemplo, eles escrevem que “o entendimento de que o tempo pode se comportar como outra direção do espaço significa que é possível se livrar do problema de o tempo ter um começo, semelhante ao modo como nos livramos do limite do mundo. Vamos supor que o começo do universo fosse como o Polo Sul da Terra, com os graus de latitude cumprindo o papel do tempo. À medida que se desloca para o norte, os círculos de latitude constante, representando o tamanho do universo, se expandiriam. O universo começaria como um ponto no Polo Sul, mas o Polo Sul é como qualquer outro ponto. Indagar sobre o aconteceu antes do começo do universo seria uma pergunta sem sentido, pois não há nada ao sul do Polo Sul. Segundo essa imagem, o espaço-tempo não tem nenhum limite — as mesmas leis da natureza vigoram tanto no Polo Sul como em outros lugares” (p. 134-135).

Se levarmos a analogia a sério, esse trecho é fascinante porque postula um ponto inicial tanto para o tempo como para o universo. A despeito do fato de o tempo imaginário se comportar como outra dimensão espacial, Hawking permite que os círculos de latitude exerçam o papel do tempo, com um ponto inicial no Polo Sul. Quando Hawking fala do “problema de o tempo ter um começo”, o que ele quer dizer é “a antiga objeção ao universo ter começo” (p. 135), objeção que seu modelo remove. A antiga objeção é a pergunta: “O que aconteceu antes do começo do universo?”. Hawking está certo quando afirma que essa pergunta não tem sentido no modelo dele. Mas deixa de mencionar que essa pergunta também não tem sentido no modelo padrão do big bang, uma vez que não existe nada antes da singularidade cosmológica. Nenhum desses modelos de universo tem começo temporal absoluto.

Portanto, a pergunta é: por que o universo começou a existir? Por que existe algo em vez de nada? Para essa pergunta, Hawking e Mlodinow defendem o que chamam de abordagem “de cima para baixo”. A ideia aqui é começar com o nosso universo observado presentemente, caracterizado pelo modelo padrão da física das partículas, e, depois, em razão de não existir um limite, calcular a probabilidade das várias histórias permitidas pela física quântica para alcançar nosso estado atual. A história mais provável representa a do nosso universo observável. Hawking e Mlodinow defendem que, “nessa visão, o universo apareceu espontaneamente do nada” (p. 136). Com “espontaneamente”, parece que querem dizer, sem uma causa.

Mas como isso pode resultar do modelo? A abordagem de cima para baixo calcula a probabilidade do nosso universo observável dada a condição da ausência de limite. A abordagem de cima para baixo não calcula a probabilidade de existir a condição da ausência de limite, mas a pressupõe como verdade. Essa condição não é metafisicamente nem fisicamente necessária. Se o universo veio à existência incausado por nada, ele poderia ter qualquer tipo imaginável de configuração espaço-temporal. Porque o nada, ou a inexistência, não tem propriedades ou limites nem é governado por nenhuma lei da física. A física começa somente no “Polo Sul” no modelo da inexistência de limite. Não há nada no modelo que implique que esse ponto veio à existência sem uma causa. De fato, a ideia de que o ser poderia surgir da não-existência sem uma causa parece metafisicamente absurda.

É evidente que Hawking e Mlodinow percebem que ainda não responderam à pergunta “Por que existe algo em vez de nada?”. Eles voltam a essa pergunta no capítulo final e dão uma resposta bastante diferente. Explicam nesse ponto que, no espaço vazio, existe uma constante energia de vácuo e, se a energia positiva do universo associada à matéria for igualmente equilibrada pela energia negativa associada à gravitação, então o universo pode vir à existência espontaneamente como uma flutuação da energia no vácuo (a qual, por um esperto passe de mágica, dizem eles: “podemos chamar de [...] zero”).

Essa parece ser uma descrição bem diferente da origem do universo, pois pressupõe a realidade do espaço e a energia contida nele. Portanto, é enigmático quando Mlodinow e Hawking concluem: “Em razão de existir uma lei como a da gravidade, o universo é capaz de criar a si mesmo do nada, e assim o fará, na maneira descrita no Capítulo 6” (p. 180). Aqui se diz que a inexistência da qual fala o Capítulo 6 não é, no fim das contas, inexistência coisa nenhuma, mas um espaço carregado com a energia do vácuo. Isso reforça a convicção de que a abordagem da ausência de limite só descreve a evolução do nosso universo desde a origem no seu “Polo Sul” até seu estado atual, mas não diz nada sobre a razão por que o universo veio a existir originalmente.

Isso significa que Hawking e Mlodinow nem mesmo começaram a tratar da questão filosófica: “Por que existe algo em vez de nada?”. Pois, no vocabulário deles, “nada” não possui o significado tradicional de “inexistência”, mas sim de “vácuo quântico”. Eles não estão sequer respondendo à mesma pergunta. Como o estudante de filosofia que, diante da pergunta “O que é Time [Tempo]?”, no exame final, respondeu: “Time [Tempo] é uma revista de notícias semanal”, assim também Hawking e Mlodinow evitaram por equívoco a difícil pergunta.

Por que o universo é propício à existência da vida?

Se não conseguiram responder às perguntas (1) e (2), que tal (3): por que existe um conjunto específico de leis e não algum outro? A questão aqui é explicar a exatidão evidentemente milagrosa das condições do universo favoráveis à existência de vida inteligente. Hawking e Mlodinow expressam essa ideia destacando que, “nos anos recentes, os físicos começaram a se perguntar com o que se pareceria o universo se as leis da natureza fossem diferentes” (p. 159). Infelizmente, essa declaração é bem enganosa. Os cientistas engalfinhados com essa exatidão minuciosa não estão perguntando como teria sido o universo se fosse governado por leis da natureza diferentes. Antes, estão questionando com o que pareceria o universo governado pelas mesmas leis da natureza com valores diferentes das constantes físicas que aparecem nele e com diferentes grandezas para as condições iniciais sobre as quais as leis operam.

Ninguém sabe com o que se pareceria um universo governado por leis diferentes. Porém, visto que estamos falando de universos governados pelas mesmas leis, mas com números diferentes inseridos nas constantes e nas grandezas, podemos calcular que tipo de universo as leis prediriam (exatamente como Hawking e Mlodinow exemplificam nas páginas 159-162). Portanto, a pergunta (3), da forma que se apresenta, está mal formulada; a correta é: por que esse conjunto específico de constantes e grandezas, e não outro conjunto qualquer?

Ora, há três respostas possíveis à pergunta: necessidade física, acaso ou planejamento (design). Hawking e Mlodinow rejeitam a hipótese da necessidade física: “É notório que os números fundamentais, e mesmo a forma, das leis evidentes da natureza não são demandados pela lógica nem por princípio físico” (p. 143). Já que não querem nada com um Projetista Cósmico, Mlodinow e Hawking optam pela hipótese do acaso. Uma vez que as probabilidades para a exatidão das condições do nosso universo ser favorável à vida inteligente são incompreensivelmente remotas, Hawking e Mlodinow recorreram à hipótese de muitos mundos para ampliar os recursos probabilísticos de modo a tornar inevitável o aparecimento por acaso de um universo nas condições exatas, precisamente ajustadas, em algum lugar do conjunto de mundos ou multiverso. Se existir nesse conjunto um número infinito de universos ordenados, então, em algum lugar do conjunto, aparecerá um universo precisamente ajustado por puro acaso.

Se for para levar a sério a hipótese de muitos mundos, e não como uma especulação metafísica, é necessário fornecer algum tipo de mecanismo para gerar o conjunto de mundos. O mecanismo ao qual Hawking e Mlodinow apelam é a abordagem da “soma sobre histórias” de Richard Feynman à teoria quântica. É essa a abordagem que Hawking usa no modelo da ausência de limite para calcular a história mais provável do universo, diante da condição da ausência de limite, até nosso estado presente observável. Hawking e Mlodinow consideram como verdadeiras essas histórias alternativas pelas quais o universo deve ter passado; são universos paralelos tão reais quanto o nosso universo.

Infelizmente, isso não é ciência, mas uma dose gratuita de metafísica. O método da soma sobre histórias de Feynman é somente uma ferramenta matemática para calcular a probabilidade da chegada de partículas subatômicas de um ponto a outro. Imaginam-se todos os caminhos possíveis que a partícula poderia ter tomado e, então, com base nisso, calcula-se a sua probabilidade para alcançar o destino observado. Não há fundamento para entender que esse “truque” matemático implique a realidade ontológica de universos espaço-temporais concretos.

Hawking e Mlodinow também apelam à Teoria M ou a teoria das supercordas para gerar um conjunto de universos apresentando diferentes valores para as constantes da natureza. Esse tipo de especulação é problemático de várias maneiras não discutidas por eles. Primeiro, a “paisagem cósmica” de 10500 diferentes universos possíveis consistentes com as leis da natureza que a Teoria M permite são apenas isto: possibilidades. Não são mundos reais, tanto quanto não são reais as histórias de Feynman.

Segundo, não está claro que 10500 possibilidades sejam suficientes para assegurar na paisagem a existência de universo precisamente ajustados. O que aconteceria se a possibilidade do ajuste fino fosse menor do que 1:10500? Isso poderia ser especialmente problemático com relação às condições iniciais arbitrárias.

Finalmente, o próprio universo descrito pela Teoria M seria precisamente ajustado? Se fosse, o problema teria recuado somente um ponto. Parece que seria, pois, como explicam Hawking e Mlodinow, a Teoria M exige exatamente onze dimensões para que seja viável. No entanto, ela não é capaz de justificar por que deve existir exatamente esse número de dimensões.

Além disso, Mlodinow e Hawking sequer mencionam, e muito menos respondem, à crítica incisiva de Roger Penrose à hipótese de muitos mundos para explicar o ajuste fino, no seu livro The Road to Reality [O caminho para a realidade]. Ou seja, ele defende que, se formos somente um membro aleatório de um conjunto de mundos, então, é incompreensivelmente mais provável que estaríamos observando um universo muitíssimo diferente do que o que estamos observando, o que contesta vigorosamente a hipótese de muitos mundos. Não há desculpas para Hawking deixar de responder às críticas que seu antigo cooperador faz à sua visão.

Conclusão

Resumindo, apesar das afirmações jactanciosas de Hawking e Mlodinow e seus constantes rodopios em torno da crença religiosa ao longo de todo esse livro, há nele um genuíno proveito para os crentes religiosos, especialmente para os interessados em teologia natural. Pois o autor afirma e argumenta em prol de fatos favoráveis a um começo absoluto do tempo e do universo e das condições exatas e notavelmente milagrosas do universo, propícias à existência de vida inteligente. Considerando-se o desespero e/ou a irrelevância das respostas que apresentaram às perguntas que motivaram sua investigação, o livro deles se apresenta como apoio bastante forte à existência de um Criador e Projetista transcendente do cosmos.


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