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domingo, 29 de julho de 2012

A existência de Deus pode ser mais assustadora do que a sua inexistência




Por: Marcio Alves

Um Deus mal e perverso no controle absoluto do universo, jogando com nossas vidas, brincando e se divertindo com nosso destino, sem alguém superior a Ele para prestar conta do que faz conosco, rindo de nossas desgraças, provocando diversos tipos de catástrofes no mundo, não se importando com ninguém, atraído por sórdidas maldades, quem já imaginou um Deus assim? Ou, quanto um Deus assim pode ser temido?

Sempre quando se imagina um Deus, ou quando a religião cria, sistematizando uma crença em Deus, ela parte dos anseios mais profundos do porão do inconsciente humano, sendo assim, por mais que Deus seja punitivo com os outros que não compartilham da mesma crença e religião, com elas (seguidoras daquela religião), Deus sempre será aquele pai presente, que cuida, ama e preservar os seus filhos, mesmo quando os castiga, faz isto porque ama e se importa com eles. Nesta crença esta embutida, algumas vezes de maneira imperceptível, o “medo de Deus” que toda religião se utiliza para manter seus seguidores fieis. (No cristianismo é o inferno, no espiritismo é o carma, no budismo o samsara e assim por diante)

Esta crença propriamente dizendo é o lado mais infantilizado de todas as religiões, porque em meio a bilhões de seres humanos, com um universo “infinito” para controlar, Deus se importaria logo com este planeta tão pequeno e com seres humanos tão insignificantes (comparados a toda grandeza do universo)?

Pior do que a sua não existência (ateísmo) ou abandono total do nosso planeta (deismo) é a possibilidade de um Deus perverso, déspota, arrogante e malvado no controle do universo. Imagina se no final de tudo – de uma vida de sofrimento, porque o sofrimento esta ligado a existência, todo mundo sofre de alguma maneira e nível – após a morte, existir vida, e nós tivermos que pagar por toda eternidade, prestando conta (cristianismo) diante de um Ser maléfico, que criou uma camará de tortura com “fogo e enxofre” para atormentar nossa vida, e, isto sem fim?

Ou seja, a ideia da existência de Deus é mais apavorante do que a sua inexistência, porque se Ele não existe, não há o que temer, nem em vida e nem depois da morte, mas, e se Ele existir de verdade, quem é capaz de saber como Ele é, e, o que fará conosco?
E, todas as pistas no mundo indica que se há um Deus quem criou tudo, Ele deve ser muito perverso, porque criou um mundo de sofrimento, seres humanos sádicos, uma natureza muito violenta, ou seja, se Ele fosse realmente bondoso, porque não criou um mundo com menos sofrimento?

A questão do sofrimento que eu coloco aqui, e, que sempre foi uma “pedra” no “sapato” do teísmo (crença em Deus) não é o sofrimento moral, causado por outros seres humanos, ainda que Ele pudesse ter feito um ser humano com uma natureza melhor, mas antes, o sofrimento existencial, com milhares de doenças...imagina uma criança encefálica, (apenas um exemplo, para não citar todos) como pode um Deus bom e justo, permitir tamanha crueldade, ainda mais com um ser que não foi capaz de fazer nem bondade e nem maldade ainda?

Sem falar na natureza tão violenta e cruel, por que desde que o mundo é mundo, sempre houve catástrofes, a diferença é que não tinha tantos seres humanos vivendo de modo aglomerado, pois imagina um terremoto na cidade de São Paulo hoje, por exemplo, que catástrofe seria? Diferente se fosse um lugar deserto, há milhares de anos atrás, totalmente desabitado por pessoas...junta se a isto, o fato de termos acesso a todo tipo de informação mundial, isto significa, que temos mais informações hoje do que antes, o que dá a impressão de que o “mundo esta realmente acabando” – a questão principal aqui é: ou Deus existe e é mal, porque criou de propósito um mundo hostil ao ser humano, e aí meu amigo, se existir um Deus assim nós estamos literalmente “fudidos”, ou Deus não existe e a natureza é “cega” e podemos viver e morrer em paz, porque quando “acabar”, para nós realmente “acabou”, de qualquer jeito estamos todos nós (raça humana) no mesmo barco em meio ao mesmo oceano, a diferença é como enxergarmos e/ou como queremos enxergar este oceano....

Como a ciência em questão de Deus não pode provar que Ele existe ou não existe, cabe a você meu caro leitor decidir; acreditar em Deus de maneira religiosa, pessoal (teísmo) e viver a vida “pisando” em ovos, não sendo e não assumindo os riscos de uma vida sem Deus, com liberdade de ser e fazer o que se deseja, até porque na crença Deus é aquele eterno estraga prazer que sempre esta com o seu olhar onipresente de quem não se pode fugir, ou acreditar como os filósofos que Deus é impessoal, (deismo) que não interfere em nossas vidas, e/ou ainda como os ateus (ateísmo) que simplesmente ignoram não acreditando em deus ou deuses, e continuar vivendo a vida totalmente voltada para o “aqui e agora”, sem o peso de ter que prestar contas a Deus, mas apenas a sua consciência?

domingo, 1 de julho de 2012

As imagens do humano em Deus




Por: Marcio Alves

 "O homem encontra e desenha o “in-desenhado” e “in-contravel” Ser em seu próprio e limitado ser existencial, com sua mentalização e sentimentalização de aperceber e apreender o divino em si, pois deus só pode ser deus de cada individuo, sendo um espelho a refletir a imagem do homem que diz servir-lo, mas que na verdade é servido para si mesmo, para as suas projeções auto projetadas da sua psique inconsciente"

O Ser supremo nomeado pelo humano de “Deus” do alto de sua infinita e desconhecida imagem é não tendo uma imagem limitada que possa descrever e enquadrar seu ser, pois todas as imagens criadas foram e serão “in-criadas” a partir dele mesmo, não sendo e não podendo ser exata, mas si sendo real nos corações de quem sente e fabrica, pois é na verdade a realidade singular do sujeito que vai de si para si mesmo, não sendo o absoluto, por isso é relativizada pelos homens, não para a gloria do Ser, mas para a própria gloria terrestre do humano.

"(...) projeta sua autoimagem dele e para ele, declarando e sistematizando o divino de sua percepção nele mesmo, sendo posto no pedestal da adoração, adorando o Ser de sua imaginação"

O homem encontra e desenha o “in-desenhado” e “in-contravel” Ser em seu próprio e limitado ser existencial, com sua mentalização e sentimentalização de aperceber e apreender o divino em si, pois deus só pode ser deus de cada individuo, sendo um espelho a refletir a imagem do homem que diz servir-lo, mas que na verdade é servido para si mesmo, para as suas projeções auto projetadas da sua psique inconsciente.

"A figura das imagens esculpidas da não realidade visível, pintadas e moldadas pelo caráter e temperamento do próprio homem, tem sua gênese da não descoberta empírica do grande assombro, sendo desenvolvida a prematura necessidade de necessitar verbalizar o inefável, com os mais variados sons antropológicos das sociedades"

Pensando ter finalmente encontrado o supremo Ser do universo, mas sem saber que não achou Ele, projeta sua autoimagem dele e para ele, declarando e sistematizando o divino de sua percepção nele mesmo, sendo posto no pedestal da adoração, adorando o Ser de sua imaginação, embora seja Ele (Deus) mesmo não outro, para o individuo que revela o seu desejo de procurar pela busca de encontrar no encontro que se dá consigo mesmo, sendo real e verdadeiro para milhões que experimenta a experiência deste encontro que nomeia-se Deus.

"Mas a grande ilusão é iludir-se a si mesmo dizendo que este desenho pintado, esta musica tocada, esta linguagem decifrada, este sons ouvidos, “sentido sentido”, da não materialização, visibilidade e compreensão do divino no humano em formas do saber pensado, construído, intuído, sentido e finalmente crido pelo seres humanos, ser o mesmo Ser, sendo que nunca foi e nunca será, pois se algum dia for, então mesmo assim pode concluir o saber que não passou de não saber"

Pois o Ser sabendo que não poderia ser exaurido pelo conhecer das percepções do pensamento e sentimento da averiguação minuciosa da criatura, deixa sua própria marca de pegadas sutis na areia da vida subjetivada pela nitidez da percepção humanista, para que mesmo através das autoimagens criadas, possa ser revelado que Ele é e que existe existindo em cada realidade existente na criatura viva.

A figura das imagens esculpidas da não realidade visível, pintadas e moldadas pelo caráter e temperamento do próprio homem, tem sua gênese da não descoberta empírica do grande assombro, sendo desenvolvida a prematura necessidade de necessitar verbalizar o inefável, com os mais variados sons antropológicos das sociedades.

"O homem revela quem é mostrando no que crer e quem é o que ele crer, pois a sua crença é uma revelação de si mesmo e não do supremo Ser (...)"

Mas a grande ilusão é iludir-se a si mesmo dizendo que este desenho pintado, esta musica tocada, esta linguagem decifrada, este sons ouvidos, “sentido sentido”, da não materialização, visibilidade e compreensão do divino no humano em formas do saber pensado, construído, intuído, sentido e finalmente crido pelo seres humanos, ser o mesmo Ser, sendo que nunca foi e nunca será, pois se algum dia for, então mesmo assim pode concluir o saber que não passou de não saber.

"Com este texto o que eu proponho hoje, não é a questão “Se Deus existi ou não”, mas que mesmo existindo, se partimos desta premissa, todos os Deuses de todas as religiões e crenças não passam de criações humanas, e, que “Deus mesmo” é totalmente desconhecido por nós, o que equivale a dizer “Deus não existe!”, ou seja, para o homem não há um Deus existindo fora dele, perdido em  algum lugar no universo, mas antes, dentro dele"

O supremo Ser não sofre influencia das influencias humanas, sejam negativas ou positivas, pois não é processado no seu desenvolvimento como se fora uma criatura, pois não é sendo o criador, vê em si mesmo e não no reflexo dos homens, ser suficientemente suficiente com Ele e para Ele.

O homem revela quem é mostrando no que crer e quem é o que ele crer, pois a sua crença é uma revelação de si mesmo e não do supremo Ser, pois não passa de sua auto imagem e descoberta, se modelando em sua crença, formando e definido quem realmente ele é no que pensa ser o grande Ser, mas não sendo para ser quem realmente é o seu oculto ser revelado nas inúmeras imagens da psique humana.



P.S.: Texto escrito por mim em 08/03/2010 quando estava no final do processo de descrença, nesta época a ultima das crenças que ainda restava em mim era a crença em “Um Ser Superior”.

Com este texto o que eu proponho hoje, não é a questão “Se Deus existi ou não”, mas que mesmo existindo, se partimos desta premissa, todos os Deuses de todas as religiões e crenças não passam de criações humanas, e, que “Deus mesmo” é totalmente desconhecido por nós, o que equivale a dizer “Deus não existe!”, ou seja, para o homem não há um Deus existindo fora dele, perdido em  algum lugar no universo, mas antes, dentro dele.





sábado, 23 de junho de 2012

A opinião sincera de um ex-crente e atual ateu sobre a bíblia “sagrada”




Por: Marcio Alves


Chegou a hora de dar o último, o principal, porém, delicadíssimo passo, rumo à desconstrução total dos dogmas pétreos do Cristianismo ortodoxo.
Eu quero declarar em alto e bom som, minha mais sincera e transparente aversão a palavra dita de Deus.

Palavra esta que se for “literalmente literalizada”, muitos dos seus episódios “ocorridos”, torna Deus em um grande Ser desprovido de inteligência e amor.
Pois se não, vejamos:

Conto da desobediência humana, (Adão e Eva) sendo uma alternativa dada por Deus? Se for escolha, logo se segue que não deveria isto, levar o Senhor a amaldiçoar o homem, aja visto, Ele próprio ter decidido dar livre arbítrio para o mesmo. Como pode ser livre, se foi, é, e será punido?

Outro episodio que para mim é muito mais uma fabula do que realidade, embora o evento em si, seja factual, pois é constatado pela ciência que realmente houve um dilúvio, porém, as inúmeras estórias que são em diversas culturas contadas e recontadas, não passam de fabulas, ou será que imaginamos uma real possibilidade do “perfeito deus” ter de fato se arrependido de criar o homem, e, depois que o destrói, volta a se arrepender de novo, só que desta vez, por haver destruído o homem?

E a dramática e desumana estória (com “e”, e não com “h”) de Deus pedindo para Abraão sacrificar o seu único filho Isaque, como se fosse um animal, por causa de um estúpido teste, para saber se no final das contas, ele amava mesmo ou não Deus?

Oras, se isto for lido literalmente, nós temos um problema grave, pois isto revelaria um deus sádico, cruel e desumano, ou então, um Ser desprovido de inteligência e conhecimento prévio do futuro, pois não sabia Ele que é justamente “onisciente”, que Abraão o amava de verdade?
Então porque Ele precisava testar este amor?

E o caso lamentável de orgulho e exibicionismo da mais pura vaidade divina, que por causa de uma acusação inverídica do diabo, o soberano, déspota e arrogante “Deus”, resolve apostar com a vida de Jó, como se fosse um brinquedinho divino, que no final de tudo ainda, depois de delegar ao diabo poder total sobre Jó, que foi brutalmente destruído, tudo que tinha, não somente os bens materiais, mas também todos os seus filhos, ficando numa doença miserável, encontra-se com o criador, e vai simplesmente desabafar com Ele, e é, por isto, injustamente e duramente acusado pelo mesmo soberano, de disputar com Ele, quando nada sabe e nada entende?
Mas como haveria de entender, se nada viu e soube, e nem ainda se quer ficou sabendo, nem foi muito menos avisado?

E as dezenas de relatos das guerras e destruição, cometidos pelos Israelitas em nome de Deus?
Como explicar os genocídios e infanticídios que foram todos causados, por uma “motivação divina”, em que o povo Israelita se achou no direito, pois eram os escolhidos, em nome de Yavé, exterminar todos os outros povos em seu redor?

Percebe-se que é esta literalidade, glorificada e defendida com unhas e dentes pelos “guardiões da reta doutrina”, que precisamos jogar na lata do lixo, se ainda desejamos ler a bíblia sem repulsa e indignação, apenas contemplando com os olhos da alma, as suas belas e significativas metáforas, mitos e fabulas.

Mas não! A bíblia é colocada no mais alto pedestal, onde é idolatrada pelos evangélicos, tida como sagrada e reverenciada, igual ou até mesmo mais, do que o próprio Cristo ou/e Deus, podendo ser questionado tudo, menos a tal da “inspiração” e “inerrância” divina dos textos canônicos, tido como literais, daí a expressão ser mesmo o fundamentalismo xiita e talibanês dos crentes.

Mas não para por ai o meu ódio em relação à pretensa “palavra de deus”, tida como verdade absoluta do Cristianismo. Pois também no novo testamento, encontro mandamentos que são contrários a vida, como por exemplo, a demonização do corpo em favor da exaltação da alma, sendo tudo aquilo advindo e para o corpo, estigmatizado e considerado pecado, mas aquilo que for para alma é santo e puro!

Um deus avesso a vida, a alegria, a diversão e o mais delicioso prazer, com a promessa fantasiosa e alienante, de uma vida melhor no além, para o descanso da alma, mas em compensação em oposição ao corpo, que na linguagem cristã, para nada presta.

Sendo a liberdade humana restringida e limitada pelos cabrestos auto-impostos pelas inúmeras regras e mandamentos, como se a vida se resumisse a um mero comprimento de normas cinzentas e anti-alegres, onde o gozar o prazer na carne é o maior pecado, mas se esquecem que o que temos neste mundo é justamente o nosso corpo, e é com ele que podemos contar e devemos valorizar cada momento de nossa efêmera vida, não abrindo mão de nossa atual existência, por uma recompensa futura no céu que talvez não exista, e que seja apenas uma manobra política do império romano, para anestesiar o povo oprimido de sua época.

Falar em império romano, não é muito estranho ser justamente isto, que Jesus nos evangelhos, vai mais apoiar e incentivar, um total abandono por vingança, e um amor e perdão incondicional dado por aqueles que nos oprimem e nos tiranizam, ser direcionado a um povo pobre, injustiçado e indefeso pelo poder político do império?

Lembrando que o novo testamento como conhecemos hoje, foi justamente juntado e acabado pelo imperador Constantino, que talvez, pode ter adulterado muitas coisas nos mesmos, tentando levar vantagem sobre a massa oprimida por ele.

Pois sem duvida alguma, de todos os ensinamentos dados por Jesus, o mais estranho é o de amar incondicionalmente os inimigos, tiranos e assassinos, pois mesmo que se consiga tal atitude desumana, as pessoas seriam anestesiadas e impedidas de lutar, se preciso for, com suas próprias vidas, em pró de uma vida mais justa, e contra a opressora tirania.

É muito argucioso e pura esperteza mesmo, se de fato Constantino inventou e colocou na boca de Jesus, o sermão da montanha, pois tal ensinamento é uma apologia total em favor dos oprimidos, fracos e marginalizados, oferecendo aos mesmos, uma anestesia paralisante de revolta contra suas situações, sendo os mesmos levados a entender que aquilo justamente é o passaporte seguro para uma vida feliz no paraíso, mas lembrando, não é para aqui, sendo somente quando morrer, ou seja, domestica e inibi qualquer vontade de lutar contra a opressão.

Em fim, eu odeio este lado nefasto da bíblia, porém as suas profundas, significativas e ricas metáforas, fábulas, poesias, símbolos e estórias, minha mais verdadeira devoção!

Texto escrito e postado originalmente, por mim, no blog: http://cpfg.blogspot.com.br/2010/05/abominacao-sagrada-da-biblia.html    em 25/03/2010 

Com o titulo: A abominação “sagrada” da bíblia

Postagem esta que alcançou a incrível marca de 496 comentários, sendo até hoje a postagem mais comentada de todos os tempos daquele blog! Vale apena acessar e ler os comentários feitos nesta postagem!

domingo, 29 de abril de 2012

Falsos Profetas (parte 5)

Por Edson Moura

A ambivalência do homem tem trazido benefícios e malefícios. Creio eu que mais coisas boas aconteceram desde que o homem começou a polarizar suas ideias. Mas quando o assunto é religião a coisa muda e figura. Quando falo que sou cético, logo sou levado ao extremo oposto da fé, sendo considerado como uma pessoa de má índole, filho do demônio e outros adjetivos que os crédulos gostam de inventar para estereotipar um ateu. Relativizar a Bíblia constitui-se um erro moral, enquanto alguns fundamentalistas a literalizam sem a menor parcimônia. Não entendem que, se levarem ao “pé da letra” ou não fazerem um exame cético acerca de algumas passagens, podem estar abrindo precedentes para justificar atos tão maus que transformariam os megalomaníacos e genocidas de nosso tempo em apenas mais um idealista com sua “causa justa”. Um exemplo evidente é o caso da historia de Josué logo após o Êxodo.


Que área do comportamento humano é mais ambíguo moralmente? Até as instituições populares que se propõem nos aconselhar sobre comportamento e ética parecem infestadas de contradições. Consideremos os aforismos: “A pressa é inimiga da perfeição”, mas posso contrapor este argumento com o seguinte: “O boi chega primeiro bebe água limpa". Ou, “É melhor prevenir do que remediar”, contrastando com, “Quem não arrisca não petisca”. Ou esta então: “Duas cabeças pensam melhor do que uma” sendo afrontada com “panela que muitos mexem ou sai cru ou queimada ou insossa ou salgada”.

Houve uma época em que a gente planejava ou justificava suas ações apoiando-se nesses tópicos contraditórios. Que responsabilidade moral têm os autores de provérbios? Ou o astrólogo que se apoia nos signos do sol, o leitor de cartas do tarot, o jogador de búzios, ou profeta da igreja da Benção?

A Bíblia nos ensina as seguintes lições: Miqueias nos exorta a trabalhar com justiça e amar a piedade (e a definição clara e resumida daquilo que Deus exige do seu povo: "O que ele quer é que façamos o que é direito, que amemos uns aos outros com dedicação e que vivamos em humilde obediência ao nosso Deus" Miqueias 6.8). No Êxodo nos proíbe cometer homicídios. Em Levítico nos ordena amar a nossos vizinhos como a nós mesmos. E nos Evangelhos nos urge a amar a nossos inimigos. Pensemos entretanto nos rios de sangue vertido por ferventes seguidores dos livros em que se acham essas exortações bem intencionadas.


No livro de Josué e na segunda parte do livro de Números se celebra o assassinato maciço de homens, mulheres e meninos, até de animais domésticos, em uma cidade atrás de outra por toda a terra do Canaã. Jericó é eliminado em uma “guerra Santa”. A única justificação que se oferece para este assassinato em massa é a declaração dos assassinos (hebreus) de que, em troca de circuncidar a seus filhos e adotar uma série de rituais particulares, prometeu-se a seu antepassados muito tempo atrás que aquela terra seria deles. Não encontramos na Bíblia “sagrada”nenhum indício de arrependimento, nem um murmúrio de inquietação patriarcal ou divina ante essas campanhas de extermínio engendradas por Josué a mando de Deus. Muito pelo contrário, Josué “consagrou a todos os seres viventes ao anátema, como Jeová, o Deus do Israel, tinha-lhe ordenado” (Josué, 10, 40). E esses acontecimentos não são incidentais a não ser centrais na narração principal do Antigo Testamento. 

Há histórias similares de assassinato em massa (e no caso dos Amalequitas, genocídio) nos livros que contam a história de Saul , Ester e outras partes da Bíblia, sem sequer uma fagulha de dúvida moral. Tudo isso, certamente, foi perturbador para os teólogos liberais de uma época mais tardia, mas duvido que para os fundamentalista tenha sido.

Diz-se com razão que o diabo pode “citar as Escrituras para seu propósito”. A Bíblia está tão cheia de histórias de propósito moral contraditório que cada geração pode encontrar justificativa para quase todas as ações que propõe. Desde incesto, a escravidão e o assassinato em massa até o amor mais refinado, a valentia e o auto-sacrifício. E este transtorno moral múltiplo de personalidade não está limitado ao judaísmo e ao cristianismo. Pode-se encontrar dentro do Islã, na tradição hindu, certamente em quase todas as religiões do mundo. Assim, não são os cientistas os que são moralmente ambíguo, mas sim, todos nós seres humanos.

A Ciência tem uma obrigação de alertar o público dos perigos possíveis, sobretudo dos perigos que emanam da própria Ciência, ou que podem se agravar pela aplicação da Ciência. Talvez esta seja uma missão profética. As advertência devem ser justificadas e divulgadas, mas seu valor não pode ser maior do que o momento exige. Se estamos sujeitos ao erro, ao engano, que erremos pensando na segurança de todos.

Uma vez que nossa vida é tão efêmera, e tão única, parece crueldade de minha parte privar qualquer pessoa que seja do consolo da fé, pois em algumas áreas, a Ciência não pode jamais remediar a angústia deixada pela decepção do homem que teve os olhos abertos para a realidade. Aqueles que não podem suportar o peso do exame cético e constatação da falácia, tem a liberdade para ignorar os princípios usados por um cético para tentar provar sua” crença”. Fé é algo que se perde aos pedacinhos, e quando vemos estamos nus, desamparados e mais cegos do que antes. É neste momento que a razão entra no jogo, que a Ciência acende uma vela e ilumina o caminho que ainda teremos que percorrer.

Acredito piamente que a Ciência está no homem a mais tempo do que a religião. O homem só chegou até aqui porque usou a Ciência na caça, na pesca, no plantio, na confecção de armas e roupas. O que não entendo é como ele pode se esquecer disto. Em determinado momento nós paramos de acreditar na Ciência para dar ouvidos a falsos profetas, e com o passar dos milênios, como não poderia deixar de ser, a religião fundiu-se à evolução, confundindo os homens e fazendo-o acreditar que “crer é preciso”. 

Fim

Falsos Profetas (parte 4)

Será que escrevo essas coisas porque sou ateu? Ou sou ateu porque me interessei em aprender sobre essas coisas? A verdade é que não importa. Não sou o fim em mim mesmo. Estou em constante metamorfose e não pretendo parar. Muitos sabem que já fui um crédulo por muito tempo, mas hoje penso diferente. Alguns amigos insistem e dizer que foi alguma decepção com Deus ou cm a religião que me fizerem um crítico ferrenho da fé. Mas isso também não importa. O que importa são os resultados. Outros me chamam de reducionista, por elevar a ciência a um patamar em que tudo se explica, ora, que dizer então de quem crê em Deus como criador de tudo e de todos? Acredito que isso sim é reducionismo.


Muitos declaram que “quando Darwin formulou sua teoria da evolução era ateu e materialista” e sugerem que a evolução foi produto de um programa supostamente ateu. Confundiram infelizmente causa e efeito. Pelo que a verdadeira história conta, Darwin estava a ponto de ser ordenado ministro da Igreja da Inglaterra quando lhe apresentou a oportunidade de embarcar no HMS Beagle. Suas ideias e crenças religiosas naquele momento, (como as descreveu ele mesmo) eram as mais convencionais. Considerava totalmente plausíveis todos e cada um dos artigos de fé anglicanos. Através de sua interrogação da natureza, através da ciência, foi constatando lentamente que ao menos parte de sua religião era falsa. Por isso trocou de ponto de vista religioso. Ora! Acaso não foi exatamente o que fiz?


Outros ficaram horrorizados ante a descrição do Darwin da baixa moralidade dos selvagens, sua insuficiente capacidade de raciocínio, seu fraco poder de autodomínio. E afirmavam que: “Hoje em dia muita gente se sente escandalizada por seu racismo.” Mas não me parece que houvesse nenhum rastro de racismo no comentário do Darwin. Ele aludia aos habitantes de Terra do Fogo, que sofriam uma escassez enorme na província mais estéril e antártica da Argentina. Quando Darwin descreveu uma mulher sul-americana de origem africana que preferiu a morte a submeter-se à escravidão, anotou que só o preconceito nos impedia de ver seu desafio à mesma luz heroica que concederíamos a um ato similar da orgulhosa matriarca de uma família nobre romana. Ele mesmo quase foi expulso do Beagle pelo capitão FitzRoy por sua oposição militante ao racismo do mesmo. Darwin estava por cima da maioria de seus contemporâneos neste aspecto. E era já ateu.

Mas, enfim, mesmo que tudo fosse diferente. Mesmo que Darwin tivesse sido motivado pela raiva, pela decepção de perder sua filha, mesmo que o ódio por deus fosse a mola propulsora que arremessou Darwin para os picos da pesquisa das espécies, em que isso afeta à verdade ou falsidade da seleção natural? Thomas Jefferson e George Washington possuíam escravos; Albert Einstein e Mahatma Gandhi eram maridos e pais imperfeitos. E a lista segue indefinidamente. Todos temos defeitos e somos criaturas de nosso tempo. É justo que nos julgue com os padrões desconhecidos do futuro? Alguns costumes de nossa era serão considerados, sem dúvida, bárbaros, pelas  gerações que virão. Possivelmente nossa insistência em que os nossos filhos recém nascidos durmam sozinhos e não com seus pais; ou possivelmente a excitação de paixões nacionalistas como meio de conseguir a aprovação popular e alcançar um alto cargo político; ou permitir o suborno e a corrupção como meio de vida; ou ter animais domésticos; ou comer animais e enjaular chimpanzés para fazer experiências; ou permitir que nossos filhos cresçam na ignorância, ou até mesmo que permitimos que um dia se adorasse a um deus que não se podia ver. Não estaremos vivos, mas certamente se estivéssemos, teríamos vergonha.

De vez em quando olhamos para o passado e vemos destacar-se alguém. É o exemplo do revolucionário americano Thomas Paine, de origem inglesa. Thomas estava muito a frente de seu tempo. Opôs-se com coragem à monarquia, a aristocracia, o racismo, a escravidão, a superstição e o sexismo quando todo isso constituía a sabedoria convencional. Suas críticas à religião convencional eram implacáveis. Escreveu na idade da razão. “Quando lemos as obscenas histórias, as voluptuosas perversões, as execuções cruéis e tortuosas, o caráter vingativo e implacável que goteja do meio da Bíblia, seria mais coerente chamá-la de “o livro de um demônio que o livro de Deus, pois ele só serviu para corromper e brutalizar à humanidade”.

Ao mesmo tempo, o livro mostrava a reverência mais profunda por um Criador do universo cuja existência Thomas Paine questionava, pois era evidente ao dar uma simples olhada no mundo natural. Mas, para a maioria de seus contemporâneos, parecia impossível condenar grande parte da Bíblia e de uma vez abraçar a Deus. Os teólogos cristãos chegaram à conclusão de que ele era um bêbado, um louco ou um corrupto. O estudioso judeu David Levi proibiu a seus correligionários tocar sequer, e menos ainda ler, o livro. Paine se viu submetido a tal sofrimento por seus pontos de vista (incluindo seu encarceramento depois da Revolução francesa por ser muito coerente em sua oposição à tirania) que se transformou em um velho amargurado.

É claro que se pode dar outros contornos à teoria de Darwin e usá-la  de modo grotesco: Magnatas de voracidade insaciável podem explicar suas práticas de cortar cabeças apelando ao darwinismo social; Os nazistas e outros racistas podem alegar a “sobrevivência do mais forte” para justificar o genocídio. Mas Darwin não fez ao John D. Rockefeller nem Adolf Hitler. É muito provável que se produziram esses acontecimentos ou similares com ou sem o Darwin.

Se pudéssemos censurar Darwin, o que outros tipos de conhecimento não poderíamos censurar também? Quem exerceria a censura? Quem de nós é o bastante sábio para saber de que informação e ideias podemos prescindir com segurança e qual delas será necessária daqui dez, cem ou mil anos no futuro? Sem dúvida podemos fazer certa valoração de que tipos de máquinas e produtos vale a pena desenvolver. Em todo caso, devemos tomar estas decisões, porque não temos recursos para aplicar todas as tecnologias possíveis. Mas censurar o conhecimento, dizer às pessoas o que deve pensar, e em que se deve crer é o mesmo que abrir a porta para a castração do pensamento, levando-nos a tomar decisões absurdas e incompetentes e a cair na decadência a longo prazo. Ideólogos ferventes e regimes autoritários consideram fácil e natural impor seus pontos de vista e eliminar as alternativas.

Fica então a frase de um líder bem conhecido para você leitor refletir:

“Está emergindo uma nova era de explicação mágica do mundo, uma explicação apoiada mais na vontade que no conhecimento. Não há verdade, nem no sentido moral nem no cientista”. Adolf Hitler

Continua...

sábado, 28 de abril de 2012

Falsos Profetas (parte 3)

Por Edson Moura
Está muito na moda hoje em dia, pendurados em postes, ou sendo entregues por panfleteiros na saída do metrô e nos pontos de ônibus, dizeres da alguns gurus. É “pai isso” “pai sei lá o quê”, que faz amarração, trás a pessoa amada de volta, e com 100% de garantia. É só agendar uma consulta espiritual onde os búzios serão jogados e o futuro será revelado. Obviamente essa consulta não será de graça, e digo mais, não será barato. Outros evocam espíritos de pessoas mortas ou de entidades que já alcançaram a “iluminação”.

As sessões de espiritismo só se praticam em habitações em penumbra onde é muito difícil ver os visitantes fantasmagóricos. Se acendermos a luz e, em consequência, termos a oportunidade de ver o que ocorre, os espíritos desaparecem. Dizem que eles são tímidos, e algumas das vítimas acreditam. Nos laboratórios de parapsicologia do século XX, existe o “efeito observador”: pessoas descritas como psíquicos, médiuns, ou canalizadores relatam que seus poderes diminuem claramente sempre que aparecem os céticos, e desaparecem de tudo em presença de um prestidigitador preparado como. O que precisam é escuridão e credulidade. Principalmente credulidade.



Uma menina pequena que tinha colaborado em um famoso engano do século XIX (se comunicava com os espíritos e os fantasmas respondiam as perguntas com fortes golpes) confessou ao fazer-se maior que tinha sido uma impostora. Fazia ranger a articulação do dedo gordo do pé. Até demonstrou como o fazia. Mas a desculpa pública obviamente foi ignorada. Começou a circular a história de que os céticos fanáticos a tinham obrigado a fazer aquela confissão.

Teve também o caso dos britânicos que confessaram ter feito “círculos nos campos de cultivo”, figuras geométricas que apareciam nas plantações (teve até um filme do Mel Gibson). Não eram artistas extraterrestres que trabalhavam com o trigo como se fora sua maneira de comunicar-se, a não ser dois homens com uma prancha, uma corda e certa propensão a brincar. Entretanto, nem sequer quando confessaram como o tinham feito trocou a opinião dos crentes. Discutiram que podia ser que alguns círculos fossem uma fraude, mas havia muitos, e alguns pictogramas eram muito complexos. Só os podiam ter feito os extraterrestres. Pouco depois, em Grã-Bretanha, outros confessaram ser os autores. Mas, e os círculos nos campos de cultivo no estrangeiro, na Hungria por exemplo, como pode explicar-se isso? Então uns adolescentes húngaros confessaram ter copiado a ideia.


Para comprovar a credulidade de um psiquiatra especialista em abduções como extraterrestres, uma mulher se apresenta como abduzida. O terapeuta está entusiasmado com as fantasias que vai fiando. Mas, quando lhe anuncia que tudo é uma fraude, qual é sua resposta? Voltar a examinar suas notas ou seu enfoque desses casos? Não. Em dias distintos sugere: 1) Que, embora não seja consciente, em realidade foi abduzida; ou 2) Que está louca: afinal de contas foi ao psiquiatra não?  3) que ele estava consciente da brincadeira desde o começo mas se limitou a ir soltando corda até que ela se enforcasse.

Um astrólogo põe um anúncio em um jornalzinho meia boca oferecendo um horóscopo grátis. Recebe aproximadamente cento e cinquenta respostas nas que se detalha, como pedia, o lugar e data de nascimento. Todos os participantes recebem a seguir um horóscopo idêntico, junto com um questionário onde lhes pergunta sobre a precisão das afirmações. Noventa e quatro por cento dos que respondem (e noventa por cento de suas famílias e amigos) respondem que, mesmo com uma margem de erro, podiam reconhecer-se no horóscopo. Entretanto se tratava de um horóscopo redigido para um assassino em série. Se um astrólogo pode chegar tão longe sem conhecer sequer a seus clientes, imaginemos aonde poderia chegar alguém sensível aos matizes humanos e não excessivamente escrupuloso.

Por que é tão fácil sejamos enganados por adivinhos, videntes psíquicos, quiromantes, pastores evangélicos, leitores de folhas de chá, do tarot , e pessoas desta índole? Certamente, captam nossa postura, nossas expressões faciais, a maneira de vestir e as respostas a perguntas aparentemente inócuas. Alguns deles o fazem com brilhantismo, e essas são coisas das que muitos cientistas não parecem ser conscientes. Também há uma rede informática a que se assinam os psíquicos “profissionais”, com a que podem dispor dos detalhes da vida dos pacientes de seus colegas em um instante. Uma ferramenta chave é a chamada “leitura fria”, uma declaração de predisposições opostas com um equilíbrio tão tênue que qualquer poderia reconhecer algo de verdade nela. Aí vai um exemplo:

“Às vezes é extrovertido, afável, sociável, enquanto outras vezes é introvertido, precavido e reservado. Tem consciência de eu não vale à pena ser muito franco e se revelar totalmente aos outros. Prefere certa dose de mudança e variedade, e fica insatisfeito quando se vê rodeado por restrições. Disciplinado e controlado por fora, tende a ser apreensivo e inseguro por dentro. Embora sua personalidade tenha pontos fracos, acredita ser capaz de compensá-los. Tem muitas capacidades que não estão sendo usadas, que não transforma em si. Tem tendência a ser crítico contigo mesmo. Tem uma grande necessidade de gostar a outros e de se sentir admirado”.

Quase todo mundo encontra reconhecível esta caracterização e muitos consideram que os descreve perfeitamente. Ora, não é de se estranhar, todos somos humano.

A lista de “provas” que alguns terapeutas acreditam que demonstram um abuso sexual na infância reprimido, é muito larga e prosaica. Inclui transtornos do sonho, excesso de comida, anorexia e bulimia, disfunção sexual, vaga ansiedade e inclusive uma incapacidade de recordar o abuso sexual da infância. Outro livro, da Assistente Social W. Sue Blume, enumera entre outros sinais que denotam um incesto esquecido: Dores de cabeça, suspeita ou ausência de suspeita, paixão sexual excessiva ou ausência dela, e a adoração aos pais. Entre os pontos de diagnóstico para detectar famílias “desestruturadas” enumerados pelo Dr. Charles Whitfield se encontram: “aflições e dores”, sentir-se “mais vivo” em uma crise, estar ansioso frente a “figuras de autoridade” e ter “procurado aconselhamento ou psicoterapia”, sentindo entretanto “que lhe falta “alguma coisa”. Como a leitura fria, se a lista for o bastante abrangente e ampla, todo mundo terá “sintomas”.

Enumerei estes relatos, apenas para mostrar como estamos sujeitos aos enganadores, sejam eles pastores, médicos (terapeutas principalmente), gurus, pais de santo, mágicos, médiuns que psicografam cartas do além, enfim, uma gama de charlatães que usam sua capacidade incrível de raciocínio para enganar àqueles que não querem usar a sua.

O exame cético não é só um instrumento para extirpar o charlatanismo e a crueldade que oprimem os que são menos capazes proteger-se e têm mais necessidade de nossa compaixão, as pessoas a quem são oferecidas poucas alternativas de esperança. É também um lembrete em tempo, de que os comícios monstro organizados por igrejas e também por candidatos a cargos públicos, a televisão e o rádio, a imprensa, o marketing eletrônico e a tecnologia encomendada pelo correio permitem que outros tipos de mentiras sejam injetados no corpo político (para se tirar proveito dos frustrados, dos incautos e dos indefesos, numa sociedade crivada de males políticos que estão sendo tratados com ineficiência, se é que são tratados de alguma forma.

Não bastasse ter que lutar contra toda a corja de malandros que passeiam pelo congresso, desfilando com seus carros blindados mantidos com nosso dinheiro, ainda temos que enfrentar outros ladrões que enfiam a mão no bolso do cidadão inocente (burro diria), e arrancam os poucos trocados que ainda possuem, para barganhar com deus por uma benção cem vezes maior. 

Continua...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Falsos Profetas (parte 1)



Por Edson Moura 

Não sei se por falta de tempo ou por pura e simples falta de interesse, mas deixei que a poeira baixasse para falar, somente agora, de um assunto que gerou polêmica na mídia, e um alvoroço no meio evangélico. Por um tempo este tipo de incidente não me incomodou, uma vez que sou ateu, e sendo ateu, pouco deveria me importar com escândalos em igrejas evangélicas, católicas ou qualquer outro tipo de religião, crença e afins. Mas o problema é que, antes de ser ateu, sou pai, filho, e cidadão da Terra, e é triste ver às vezes como alguns amigos, familiares e até mesmo estranhos são literalmente enganados, engodados, fisgados e depois descartados por algumas igrejas e crenças.

De quem vou falar agora? Já falei uma vez do “Apóstolo Agenor Duque”, meu amigo e coautor neste blog, Marcio Alves já escreveu sobre “Bispo Edir Macedo”. Também já escrevi duras críticas à “Apóstolo Sérgio Lopes, Silas Malafaia, Valnice Milhomens, Bispa Sônia e Apóstolo Estevan Hernandes, Marco Feliciano, Reverendo João Batista e R.R. Soares, enfim, já disse e repito que para mim não passam de charlatães, picaretas, ladrões covardes, ou como se diz no meio evangélico: “Lobos em pele de cordeiro”. Poupei somente um, e esse um agora será alvo de minhas críticas também.

Não quero atacá-lo como pessoa, e sim como “líder”. Isso mesmo, em dos maiores líderes religiosos do Brasil. “Dono” de uma igreja que vem crescendo exponencialmente às custas da ingenuidade de seus fiéis, que são manipulados a tal ponto, que torna-se praticamente impossível convencê-los de que os documentos comprovando a roubalheira são verdadeiros. Pois é, (este é um de seus muitos chavões), “O King Kong” (Edir Macedo) é mico perto de Valdemiro Santiago. Ele mesmo! Valdemiro Santiago tem convencido milhões de pessoas a esvaziarem seus bolsos em troca de um milagre, de uma cura milagrosa, de um emprego em tempos de crise, de um precatório que não sai, e tantos outros desejos de seus fiéis. Meu povo sofre por que lhe falta conhecimento.

O Povo é burro! Não há mais como negar. Sofre por que quer! Parece que gosta! Bando de inúteis! Merecem mesmo que um malandro tire até seus últimos centavos! Era isso que eu dizia em alguns momentos de ira. Mas no fundo não peno assim. Quero que o povo se liberte. Quero que meu povo seja autossuficiente. Quero que meus concidadãos abram os olhos, arregacem as mangas, que trabalhem com a força de seus braços e de suas mentes para conseguir seus bens pessoais, e não que fiquem implorando a um Deus que nem sequer existe, que lhes dê proteção, prosperidade e vida. Então, só para encerrar este parágrafo e entrar realmente no texto, gostaria de salientar, e se possível gritar, que: Não se enganem mais meu povo! Valdemiro Santiago é um ladrão! Assim como todos os outros que citei acima.

Bom, feito o desabafo, quero agora trazer à você, crente ou não, ateu ou não, cético ou não, um pequeno estudo, com exemplos e tudo mais, de como escapar das garras da mentira. Inspirado por Carl Sagan, gostaria que você que chegou até aqui, e que possivelmente já está me odiando, ou amando, quem sabe, não pare a leitura. Vá até o final. Quem sabe poderá aprender algo. Quem sabe, a partir deste texto, seu senso crítico e melhor, autocrítico, aflore. E toda vez que tentarem enganar você, algumas nuances o farão questionar, o farão refletir se é possível, se existe outra hipótese, mas sempre partindo do principio lógico de que: “A ausência de evidências não é a evidência da ausência”.

Benjamim Franklin, em 1784 escreveu: “Havendo tantos transtornos que se curam sozinhos e tanta disposição na humanidade a enganar-se a gente mesmo e a outros, e como meu comprido tempo de vida me deu frequentes oportunidades de ver elogiados alguns remédios como se curassem tudo para ser deixados a seguir totalmente de lado como inúteis, não posso a não ser temer que a expectativa de grande benefício do novo método para tratar enfermidades resultará uma ilusão. Entretanto, em alguns casos esta ilusão pode ser de utilidade enquanto dure”. Mas, “cada época tem sua loucura particular”.

Diferentemente de Benjamim Franklin, a maioria dos cientistas consideram que não é sua tarefa revelar os enganos pseudocientíficos, muito menos a autossugestão sustentada apaixonadamente. Além disso, tampouco tendem a ser muito bons nisso. Os cientistas estão acostumados a lutar com a natureza que, embora possivelmente ofereça seus segredos com relutância, luta de maneira justa. Frequentemente não estão preparados para esses pastores sem escrúpulos (e pastores sem escrúpulos é redundância, eu sei) que não obedecem a uma norma de conduta. Na minha opinião, os pastores estão no negócio do engano. Praticam uma das muitas ocupações (como a atuação teatral, a publicidade, a religião burocrática e a política) em que o que um observador ingênuo poderia interpretar como mentira é aceito socialmente como se fora em serviço para o bem maior. Muitos pastores dizem que não enganam e sugerem que seus poderes lhes são dados por Deus. Alguns usam seus conhecimentos para pôr em evidencia aos enganadores que há entre seus colegas de ramo. Um ladrão se dispõe a caçar a outro ladrão.

Poucos reagem a este desafio com tanta energia como Marcio e eu, que somos considerados “decepcionados com Deus”. A sobrevivência até nossos dias do misticismo dos tempos de Noé e a superstição não me irritam tanto quanto a aceitação acrítica das obras de misticismo e superstição, religiosas ou não, que podem defraudar, humilhar e às vezes inclusive matar. Como todos os seres humanos, também sou imperfeito. Às vezes sou intolerante e condescendente e não sinto nenhuma simpatia pelas fragilidades humanas que fundamentam a credulidade. 

Pretendo trabalhar muito ainda para desmascarar alguns feiticeiros, videntes remotos, “telepatas”, pastores cheios da unção e curandeiros que extorquem seu público. Não estou preocupado se mais cedo ou mais tarde venham me chamar de “obcecado pela realidade”. Quem dera pudesse um dia dizer o mesmo de nossa nação e nossa espécie. Qualquer um há de convir comigo que as coisas andam muito bem no falso, mas, lucrativo negócio da cura mediante a fé. Quero ainda poder mostrar que os que se levantam das cadeiras de rodas e, conforme se afirma, foram curados pelo pastor, ou como dizem, Jesus, nunca tinham estado confinados a cadeiras de rodas, são contratados pelos bandidos do púlpito para florearem o “show da fé” que estão apresentando. 

Desafio qualquer pastor safado a proporcionar provas médicas sérias para dar validade a suas operações miraculosas. Convido às agências locais e federais do governo a aplicar a lei contra a fraude e a má prática médica, pois é isso que estão fazendo muitas vezes, impedindo por meio da sugestão, que o doente procure um médico de verdade. Critico aos meios de comunicação por seu proposital afastamento do tema. Desejo trazer à tona o desprezo profundo desses pastores, para com seus “pacientes fiéis” e paroquianos. Muitos são enganadores intencionais que usam a linguagem e os símbolos evangélicos cristãos ou da Nova Era para aproveitar-se da fragilidade humana. Possivelmente alguns deles tenham motivos não venais. Possivelmente... possivelmente.

Ou será que estou sendo muito radical e severo? No que se diferencia o enganador ocasional na igreja, da fraude ocasional na ciência? É razoável suspeitar de toda uma profissão porque há algumas maçãs podres? Parece-me que, como mínimo, há duas diferenças importantes. Primeiramente, ninguém duvida de que a ciência funcione de verdade, embora de vez em quando possa oferecer uma afirmação equivocada ou fraudulenta. Mas, que aconteça cura “milagrosa” graças à fé, independentemente da capacidade de o corpo curar-se naturalmente, é francamente duvidoso. Em segundo lugar, e muito importante, a ciência expõe, quando descoberta uma fraude e engano quase exclusivamente por si mesma, não espera que outras entidades o façam. É uma disciplina que se vigia a si mesmo, o que significa que os cientistas são conscientes do potencial de mentira e engano que existe. Mas quase nunca são os pastores quem revelam a fraude e engano na cura pela fé. Certamente, é surpreendente a resistência das Igrejas, sinagogas e centros de umbanda em condenar o engano demonstrável entre suas instituições.

Quando fracassa a medicina convencional, quando temos que nos enfrentar à dor e a morte, certamente estamos abertos a outras perspectivas de esperança. E, ao fim e ao cabo, há algumas enfermidades psicogênicas. Muitas podem ser quando menos mitigadas com uma mentalidade positiva. Os placebos são medicamentos fictícios, frequentemente pílulas de açúcar. As companhias de medicamentos comparam rotineiramente a eficácia de seus medicamentos com os placebos administrados a pacientes com a mesma enfermidade sem possibilidade de reconhecer a diferença entre o fármaco e o placebo. Os placebos podem ser assombrosamente efetivos, especialmente para resfriados, ansiedade, depressão, dor e sintomas que é verossímil que estejam sendo gerados pela mente. É do conhecimento de muitos que o fato de acreditar possa produzir endorfinas (pequenas proteínas do cérebro com efeitos como a morfina). Um placebo só funciona se o paciente acredita que é uma medicina efetiva. Dentro de limites estritos, parece que a esperança pode transformar-se em bioquímica.

Grandes quantidades de pessoas acreditam na existência o que se chama cura psíquica ou espiritual. Ao longo da história humana se associaram à padres, freiras e a uma ampla variedade de curandeiros, reais ou imaginários. A “escrófula”, uma espécie de tuberculose, chamava-se na Inglaterra o “mal do rei” e se supunha que só podia ser curada mediante a mão do rei. As vítimas esperavam pacientemente para que o rei as tocasse; o monarca se submetia brevemente a outra pesada obrigação de seu alto cargo e, embora não parecesse que se curasse ninguém, a prática continuou durante séculos.

Um famoso milagreiro do século XVII foi Valentino Greatracks. Descobriu, com certa surpresa, que tinha poder para curar enfermidades, incluindo resfriados, úlceras, e epilepsia. A demanda de seus serviços aumentou de tal modo que não tinha tempo para nada mais. Afirmava que todas as enfermidades eram causadas por espíritos maus, a muitos dos quais reconhecia e chamava por seu nome. 

Tão grande era a confiança nele, que o cego acreditava ver a luz que não via, o surdo imaginava que ouvia, o coxo que andava bem e o paralítico que tinha recuperado o uso de suas extremidades. A ideia de saúde fazia que o doente esquecesse por um tempo seus males, e a imaginação, dava uma falsa visão a uma classe, pelo desejo de ver, assim como acontecia um falso milagre pelo forte desejo de ser curado do doente.

Há inumeráveis casos na literatura mundial de exploração e antropologia não só de doentes curados pela fé no milagreiro, mas também de gente que se consome e morre pela maldição de um bruxo.

Em 1858 se informou de uma aparição da Virgem Maria em Lourdes, França. A  “mãe de Deus” confirmou o dogma de sua concepção imaculada que tinha sido proclamado pelo papa Pio XI só quatro anos antes. Algo assim como cem milhões de pessoas foram até Lourdes com a esperança de curar-se, muitas delas com enfermidades que a medicina da época não podia vencer. A Igreja católica romana rechaçou a autenticidade de grande quantidade das curas chamadas milagrosas. Só aceitou sessenta e cinco milagres em quase um século e meio (de tumores, tuberculose, cegueira, bronquite, paralisia e outras enfermidades, mas não, por exemplo, a regeneração de uma extremidade ou uma coluna vertebral partida). 

Das sessenta e cinco curas, a proporção é de  dez mulheres por cada homem. As possibilidades de uma cura milagrosa em Lourdes, portanto, são de uma entre um milhão. Há tantas possibilidades aproximadas de curar-se depois de uma visita a Lourdes como de ganhar na mega-sena, ou de morrer em acidente de avião... inclusive indo até Lourdes.

A taxa de remissão espontânea de todos os cânceres, agrupados, estima-se entre um para cada dez mil e um para cada cem mil. Se só cinco por cento dos que vão a Lourdes fossem ali para tratar de um câncer, deveria haver entre cinquenta e quinhentas curas “milagrosas” só de câncer. Como só três das sessenta e cinco curas testemunhadas são de câncer, a taxa de remissão espontânea em Lourdes parece ser inferior à que existiria se as vítimas ficassem em casa. Certamente, se você for um entre os sessenta e cinco curados, será muito difícil lhe convencer de que sua viagem a Lourdes não foi a causa da remissão da enfermidade. Algo similar parece, e deve acontecer nas igrejas evangélicas, centros de umbanda e afins .

No próximo texto, que não demorará muito, darei continuidade ao tema e algumas maneiras de escapar dos enganadores. Sugerirei algumas perguntas que devemos fazer e "nos fazer", toda vez que nos apresentarem uma falácia religiosa de cura por fé.

Continua...     Falsos Profetas (parte 2)                         


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