Mostrando postagens com marcador Resumo de Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resumo de Livros. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Livro: A Epopeia do Colapso - Edson Moura

  


Capítulo 1 

A Cicatriz do Céu e o Silêncio da Rede 

    O ar na cela de concreto não era apenas denso; era uma suspensão palpável de poeira fina e humidade pegajosa, que se agarrava à garganta e aos pulmões com a persistência de um mal-estar crônico. Um cheiro rançoso e penetrante de mofo, misturado à acidez metálica de ferrugem e ao odor adocicado e fétido de desespero envelhecido, preenchia cada centímetro cúbico do espaço, impregnando as roupas, a pele, até mesmo os pensamentos. Elias Thorne, um homem cujos cinquenta e poucos anos haviam sido corroídos e envelhecidos prematuramente pela dureza dos últimos tempos, curvava-se sobre uma mesa improvisada. Ela era um monumento à precariedade, feita de tábuas de madeira apodrecida, cujas farpas ameaçavam rasgar a carne a cada toque, e de pilhas cambaleantes de tijolos soltos, que vibravam sob o menor movimento. Sua figura era a de um profeta exausto de uma fé esquecida, um sacerdote de um culto à conexão que o mundo havia abandonado.

     Seus óculos, armados com hastes de arame dobrado e lentes opacas por arranhões profundos, escorregavam incessantemente pelo nariz afilado, deixando marcas vermelhas e irritadas em sua pele pálida. Gotas de suor frio, apesar do clima ameno, umedeciam os poucos fios ralos de cabelo que ainda se agarravam à sua testa alta, um lembrete constante da tensão que o consumia. Diante dele, uma carcaça de rádio antigo repousava, seu invólucro de plástico, outrora vibrante, agora rachado e desbotado por anos de exposição e negligência, parecendo um artefato de um mundo há muito extinto. Para Elias, aquele objeto quebrado não era apenas uma máquina; era um altar silencioso, o epicentro de sua última e mais teimosa crença: a crença na possibilidade de reconexão. 

   Os dedos de Elias, que em uma vida anterior deslizavam com a precisão cirúrgica de um virtuose sobre interfaces holográficas etéreas e painéis de controle imaculados de supercomputadores que     governavam redes continentais, agora tremiam levemente. A trepidação não era de fraqueza, mas de um esforço concentrado e frustrado ao manusear fios corroídos, de isolamento puído, e capacitores inchados, com suas superfícies metálicas manchadas pelo tempo e pela oxidação. A cada toque, o material granuloso e quebradiço se desfazia, liberando um cheiro de cobre oxidado e plástico queimado. Sua busca era por um sinal, não importava quão fraco ou distorcido fosse; qualquer ruído que pudesse, por um instante que fosse, perfurar o silêncio ensurdecedor e opressor que havia engolido o mundo inteiro. 

    Não era por entretenimento, um conceito alienígena e quase obsceno agora, nem por notícias – essas eram luxos há muito tempo esquecidos, relíquias de uma era de abundância e segurança. Não, sua motivação era mais primal, mais desesperada. Era por validação. Uma prova irrefutável, ainda que microscópica, de que, em algum lugar remoto deste planeta devastado, alguém ainda tentava, alguém ainda existia com um propósito maior do que a mera e brutal sobrevivência. Ele precisava saber que a humanidade não havia se rendido completamente ao caos, que a faísca da civilização não havia sido extinta, mas apenas obscurecida. Precisava de um eco, uma reverberação que confirmasse a existência de uma vontade coletiva, de um futuro possível além da miséria presente.

     Lena, sua filha, aos dezesseis anos de idade, sentava-se num canto mais escuro do abrigo, aninhada sobre um emaranhado de cobertores esfarrapados e remendados, onde cada dobra contava uma história de noites geladas e abrigos temporários. Ela o observava com a gravidade quieta que, ao longo dos últimos anos infernais, havia se tornado sua segunda pele, uma armadura invisível forjada na dor. Seus olhos, que em tempos imemoriais, antes da Grande Queda, haviam transbordado da curiosidade vivaz e da espontaneidade luminosa da adolescência, agora eram poços profundos de pragmatismo endurecido e uma vigilância constante, uma sombra de desconfiança sempre presente. Não havia espaço para devaneios em seu olhar, apenas a fria análise do ambiente e a avaliação silenciosa de ameaças. 

    Com movimentos metódicos e precisos, ela polia uma faca de caça, sua lâmina cega mas robusta, com um pedaço de couro gasto e escuro. O som suave e rítmico do atrito do metal contra o couro era um contraponto quase hipnótico à respiração ofegante e tensa do pai, uma batida constante que pontuava o silêncio que os envolvia. Não havia palavras trocadas entre eles, não havia necessidade de preencher o vazio com banalidades. O silêncio que pairava sobre eles era preenchido por uma compreensão mútua que transcendia a linguagem, uma complexa teia de gestos sutis, olhares carregados de significado e uma telepatia silenciosa, todos forjados e temperados na fornalha do Grande Desmantelamento. Eles eram sobreviventes, e essa experiência compartilhada os unia de uma forma que poucas famílias já haviam conhecido. 

O sol pálido do fim da tarde, um disco esmaecido e sem calor, esgueirava-se por uma fenda irregular na parede de concreto, uma cicatriz deixada por algum impacto antigo. Seus raios fracos, quase sem força, dançavam com a poeira suspensa no ar, criando padrões luminosos e efêmeros que pareciam estrelas cadentes ao contrário. Essa luz tênue, impiedosa em sua honestidade, revelava as marcas indeléveis do tempo e da privação que haviam esculpido seus rostos: a barba por fazer de Elias, uma tapeçaria desgrenhada de pelos grisalhos e escuros que ocultava parte de sua mandíbula outrora forte; as olheiras profundas e violáceas de Lena, contrastando com a palidez de sua pele, testemunhas de noites mal dormidas e vigílias constantes. Seus corpos eram mais magros, suas peles mais ressecadas, a vitalidade drenada por uma batalha contínua contra a escassez. 

    As paredes do abrigo, que em uma vida anterior e opulenta haviam sido os limites cinzentos e impessoais de uma sala de arquivos em um prédio de escritórios qualquer, agora eram revestidas com uma colagem heterogênea de páginas arrancadas de livros velhos e pedaços de papelão amassado. Cada folha, cada fragmento, era uma tentativa patética, quase comovente, de isolamento contra o frio implacável que, com a descida da noite, se infiltraria por cada fresta e rachadura, mordendo a carne e os ossos. Havia algo de quase sacrílego naquelas páginas de obras literárias e enciclopédias, outrora reverenciadas, agora reduzidas a meros isolantes térmicos, seus conteúdos esquecidos em favor da sobrevivência mais básica. 

    A fome era uma companheira constante, um nó apertado e persistente no estômago que moldava cada decisão, cada pensamento, cada passo. Não era um apetite passageiro, mas uma dor surda e onipresente que reverberava em cada célula do corpo. O jantar, eles sabiam, seria mais uma porção minúscula de grãos ressecados, cozidos em água suja filtrada, insípida e sem nutrientes. Talvez, apenas talvez, se a sorte, uma entidade caprichosa e rara neste novo mundo, sorrisse para eles, um punhado de larvas colhidas do solo úmido do lado de fora pudesse complementar a refeição, fornecendo um mínimo de proteína. 

    Mas Elias sentia uma culpa ainda mais profunda, um tipo de fome diferente, que roía suas entranhas com a ferocidade de um predador. Como ele, Elias Thorne, o renomado engenheiro-chefe de sistemas energéticos globais, o homem que havia projetado e supervisionado as redes complexas e interconectadas que moviam continentes inteiros, pôde falhar tão catastroficamente? A pergunta era um fardo, uma rocha esmagando seu peito. O Desmantelamento, ele lembrava com uma dor aguda, não havia sido uma explosão espetacular, uma guerra nuclear com cogumelos de fumaça e destruição instantânea. Não. Foi algo muito mais insidioso, muito mais terrível. Foi um sussurro de falhas, uma cascata silenciosa e inevitável de colapsos que se espalhou como um vírus maligno por cada nó da intrincada teia tecnológica que sustentava o mundo. 

    Ele fechou os olhos por um instante, e as imagens daquele tempo, sempre à espreita nas profundezas de sua mente, invadiram-na com uma força avassaladora. Não um flashback abrupto e caótico, mas uma névoa densa e pegajosa que se adensava gradualmente, trazendo consigo o cheiro metálico e acre de ozônio queimado, a sensação de impotência esmagadora e o ruído ensurdecedor de um mundo se desfazendo. Ele estava no epicentro, no centro de operações globais da GlobalNet, um bunker subterrâneo que prometia segurança e controle, agora transformado em um túmulo tecnológico. 

    O ar condicionado zumbia inutilmente, tentando combater o calor gerado por milhares de servidores superaquecidos. Elias estava cercado por telas que piscavam em um vermelho infernal, cada uma um portal para uma catástrofe em andamento. Alarmes estridentes, com seus tons agudos e dissonantes, gritavam em múltiplas línguas, cada um anunciando o fim de uma parte da civilização. Os gráficos de consumo de energia, que em tempos normais eram linhas suaves e previsíveis, dançando em uma harmonia perfeita de oferta e demanda, agora pareciam os traçados frenéticos e caóticos de um ataque cardíaco terminal, pulsando com a agonia de um sistema em colapso.

     "Estamos perdendo a rede do Leste Asiático, supervisor. Falha total em 73% dos nós de rede primários", uma voz robótica, assustadoramente calma e desapaixonada, ecoava pelos alto-falantes, contrastando brutalmente com o pandemônio visual. "Cascata de falhas na América do Norte, sistemas de backup offline. Reatores secundários em modo de segurança, mas sem resposta. Iniciando protocolo de desconexão de emergência, mas a propagação é global." 

    Elias se lembrava da sensação física de sentir o chão tremer sob seus pés, não por um terremoto geológico, mas pela magnitude da desintegração invisível, mas cataclísmica, que ocorria. Ele havia visto os relatórios, lido os estudos, alertado repetidamente sobre a fragilidade inerente da interconexão global, a perigosa dependência de um sistema tão complexo e sem redundâncias reais. "Nenhuma rede é grande demais para cair", ele havia dito em uma conferência internacional, suas palavras recebidas com risos condescendentes e olhares de desprezo por colegas que o consideravam um alarmista. Agora, a ironia era um veneno amargo na sua garganta, um elixir de culpa e arrependimento que ele era forçado a engolir a cada dia. Ele, que outrora era o arauto do progresso e da conectividade, tornou-se o testemunho vivo de seu fracasso.

     A primeira falha foi quase imperceptível, um piscar fugaz em uma subestação remota na periferia de um continente distante, um evento que, isoladamente, seria rapidamente corrigido. Mas, como um incêndio em floresta seca, alimentado por anos de negligência e sistemas sobrecarregados, uma série de microcortes de energia começou a dançar pelo globo, cada um sobrecarregando o próximo em uma sequência impiedosa, como dominós caindo numa cadeia interminável, acelerando de forma exponencial. Os sistemas de segurança, projetados com arrogância para conter falhas localizadas e isolar problemas, foram engolidos por uma maré incontrolável de eventos simultâneos, incapazes de distinguir entre um problema isolado e um ataque sistêmico. Eles sucumbiram sob o próprio peso, impotentes. 

    Quando a internet finalmente caiu, não foi com um estrondo apocalíptico, mas com um silêncio aterrorizante, como se o mundo inteiro tivesse, de repente, prendido a respiração. Não houve gritos, apenas o súbito vácuo de informação. As comunicações globais pararam, as finanças mundiais evaporaram, os transportes se imobilizaram, e tudo o que dependia daquele fluxo invisível de dados desmoronou em uma pilha de ruínas digitais. A complexidade que outrora era a glória da humanidade, agora era a sua condenação, o ponto de alavancagem para sua própria queda. O mundo, de repente, se tornou vasto e silencioso novamente, mas desprovido de sua inocência. 

    A culpa pesava sobre Elias não como uma nuvem passageira, mas como uma lápide de granito, fria e inescapável, esmagando-o sob seu peso invisível. Ele havia dedicado a vida inteira a construir e otimizar esses sistemas, a tecer a intrincada tapeçaria que unia a humanidade. Ele deveria ter previsto a fragilidade inerente, deveria ter feito mais para proteger a todos. Sua mente analítica, outrora uma máquina eficiente de encontrar soluções e prever falhas, agora estava presa em um loop infinito de "e se", um purgatório mental de arrependimento e autocrítica. E se ele tivesse insistido mais? E se tivesse alertado com mais veemência? E se tivesse encontrado uma alternativa? 

    A vida que ele havia prometido a Lena, uma vida cheia de oportunidades, de segurança, de progresso e de um futuro brilhante, havia se desfeito em pó entre seus dedos, substituída por esta existência brutal e incerta. A promessa quebrada era a maior dor, mais aguda que a fome, mais cortante que o frio. 

    Lena pigarreou, um som sutil e deliberado que o trouxe de volta ao presente, à realidade crua do cheiro de poeira e mofo, ao ar viciado do abrigo. Ela havia terminado de afiar a faca, e agora a lâmina, recém-afiada, refletia a pouca luz que entrava. Sua atenção estava voltada para a rachadura na parede, onde o céu noturno começava a se insinuar, pontilhado por estrelas que, antes da Grande Queda, eram invisíveis na cidade iluminada pela poluição luminosa. Aquele era o céu que os cobria, um manto de veludo escuro e profundo, sem a cicatriz luminosa da poluição, mas com a marca indelével da ausência de tudo o que fora. A ausência de aviões, de satélites, de luzes urbanas que pintavam o horizonte. Era um céu puro e terrível, testemunha silenciosa do colapso. 

    "Pai, o rádio?" A voz de Lena era baixa, quase um sussurro, mas carregada de uma expectativa que ela tentava disfarçar, uma fina camada de esperança que ela temia quebrar. Ela odiava a fragilidade da esperança. 

    Elias suspirou, o ar raspando em sua garganta seca, um som áspero. Ele queria mentir, para poupá-la, mas a honestidade era uma das poucas moedas que ainda possuíam. "Nada, querida. Apenas estática. Sons fantasmas de um mundo que não existe mais. Parece que a banda de rádio de ondas curtas está... morta. Como todo o resto." Ele tentou soar casual, tentou injetar uma nota de indiferença em sua voz, mas a frustração era uma dor aguda, um espinho fincado em seus ossos. Aquele rádio, um artefato da era anterior ao Desmantelamento, era sua última e mais desesperada esperança de encontrar um vestígio de uma voz amiga, um sinal de vida inteligente.

     Lena assentiu, sem surpresa. Ela havia aprendido a não esperar muito do mundo, a blindar-se contra a decepção. A expectativa era um luxo que o novo mundo, em sua brutalidade, não permitia. Mas, por um breve momento, um brilho de algo mais profundo e vulnerável apareceu em seus olhos, uma faísca de nostalgia e anseio. Ela se lembrava das histórias que Elias contava, sussurradas nas noites mais frias, histórias sobre a "Cidade-Refúgio Éden". Não era apenas uma cidade em suas narrativas; era uma lenda, um oásis mítico de ordem e segurança em meio ao caos reinante, um lugar onde a civilização ainda respirava, intacta. Elias falava dela com uma convicção que roçava a obsessão, um brilho obstinado nos olhos cansados que contradizia o realismo brutal e desolador do seu dia a dia. 

    "Você acha que Éden ainda existe, pai?" Ela perguntou, a pergunta flutuando no ar denso entre eles, carregada de um peso que ia além das palavras. Era uma pergunta sobre o propósito, sobre a razão de continuar. 

    Elias parou de mexer nos fios em suas mãos, seu olhar fixo em um ponto invisível além da parede, em um horizonte que talvez só existisse em sua mente. O silêncio que se seguiu foi preenchido com o peso de sua própria fé inabalável. "Tem que existir, Lena. Alguém tem que ter sobrevivido, alguém tem que ter mantido as coisas funcionando. A inteligência humana, a ordem, a capacidade de construir... não podem simplesmente desaparecer. Não pode ter sido em vão. Éden é a prova disso. Uma lenda, sim, mas lendas nascem de algo real, de uma necessidade profunda, de uma verdade essencial." Ele repetia isso, não apenas para ela, mas para si mesmo, reforçando sua própria convicção. Éden era sua bússola moral, o farol que o guiava na escuridão, o objetivo que o impedia de afundar completamente no pântano pegajoso e sem fundo da desesperança. Era a última fortaleza da racionalidade em um mundo que enlouquecera. 

    Lena, por sua vez, tinha uma relação mais complicada, mais ambivalente, com a lenda de Éden. Para ela, era uma promessa sedutora de normalidade, uma miragem cintilante de um tempo em que as coisas faziam sentido, em que havia comida farta e camas macias e risadas que não precisavam ser contidas ou abafadas pelo medo. Era a visão de banhos quentes, de livros não queimados para aquecer, de dias sem a sombra constante da ameaça. Mas a realidade da sobrevivência, com suas lições cruéis e inesquecíveis, havia ensinado a ela uma lição dura e dolorosa: confiar em contos de fadas, em promessas vazias, era perigoso. Era uma fraqueza que podia custar a vida. Seu pragmatismo a puxava firmemente para a terra dura e fria, enquanto a esperança teimosa do pai a empurrava para um horizonte incerto, um futuro que ela mal ousava vislumbrar. 

    Naquele dia, Lena havia se aventurado um pouco mais longe do que o usual em suas patrulhas diárias de busca por suprimentos. Uma intuição, ou talvez a crescente urgência da fome que apertava seus intestinos, a havia impulsionado para territórios menos explorados. A cidade, ou o que restava dela, era um cemitério colossal de concreto e metal retorcido, um testemunho mudo e assombroso da arrogância humana. Prédios, antes altivos e imponentes, agora estavam despidos de suas fachadas, suas entranhas expostas ao ar, como esqueletos gigantescos. Carros, outrora símbolos de liberdade e progresso, estavam empilhados como brinquedos quebrados em avenidas que um dia fervilharam de vida, de tráfego, de vozes. O cheiro de decomposição, de poeira e de ferrugem era o perfume oficial da metrópole morta.

     O silêncio era a característica mais assustadora, um silêncio tão profundo que parecia engolir qualquer som que ela tentasse fazer. Era quebrado apenas pelo vento uivando como um fantasma faminto através das janelas vazias dos edifícios e o farfalhar ocasional de algum animal pequeno, um rato ou um inseto, esgueirando-se entre os escombros. Seus passos eram cautelosos, seus olhos, treinados para escanear cada sombra, cada movimento, em busca de ameaças ou oportunidades. Ela se movia como uma predadora silenciosa em um ambiente onde cada esquina podia esconder perigo.

     Ela havia encontrado um supermercado abandonado, sua fachada de vidro quebrada e coberta de grafites ilegíveis. Lá dentro, era um esqueleto cavernoso de prateleiras vazias e retorcidas, latas enferrujadas espalhadas pelo chão, um monumento à abundância perdida. Entre os corredores, onde antes havia uma profusão estonteante de produtos de todas as cores e formas, agora só restava o odor rançoso e doce de produtos estragados, uma mistura de frutas apodrecidas, laticínios azedos e químicos de limpeza vazados, e a poeira que cobria tudo com um manto cinzento e uniforme. A luz que se filtrava pelas aberturas criava feixes que revelavam as partículas dançantes no ar, quase como uma visão de outro mundo.

     Mas Lena era boa em encontrar o que os outros ignoravam, o que passava despercebido aos olhos menos atentos ou mais desesperados. Sua paciência e sua capacidade de observar os detalhes eram suas maiores armas. Atrás de uma prateleira tombada, esmagada sob pilhas de revistas velhas e mofadas, com suas páginas coladas e ilustrações desbotadas, ela descobriu uma pequena caixa de atum enlatado, milagrosamente intacta, seu rótulo ainda visível, embora desbotado. Era uma vitória minúscula, quase insignificante para o mundo, mas para eles, era uma faísca, uma promessa. O peso da lata em sua mão era o de um tesouro inestimável. 

    Ao sair do supermercado, com a lata de atum firmemente guardada, ela notou um vestígio da vida anterior que a assombrou com uma pontada de dor. Uma vitrine de uma loja de brinquedos vizinha, com o vidro estilhaçado, mas, em seu interior, um ursinho de pelúcia intacto repousava, seus olhos de botão fixos num ponto distante, como se ainda esperasse por uma criança. Por um momento fugaz, a Lena de antes do Desmantelamento, a menina que adorava brinquedos e sonhava com um futuro brilhante e cheio de possibilidades, quase a alcançou. Uma onda de tristeza infantil a varreu, uma lembrança de inocência perdida. Mas a Lena de agora, a sobrevivente endurecida, apenas apertou a mandíbula, o músculo tenso sob a pele, e seguiu em frente, seus passos firmes e decididos.

     Não havia espaço para sentimentalismos no mundo deles. Ursos de pelúcia não te mantinham vivo.

     A visão daquele urso, porém, despertou nela uma memória quase esquecida, uma dor latente que ela havia enterrado profundamente. A mãe dela, antes do colapso, havia prometido um urso similar para seu aniversário. Um aniversário que nunca aconteceu, engolido pela catástrofe. A lembrança era um espinho, uma agulha fria de mágoa que perfurava sua resiliência. Ela balançou a cabeça, um movimento brusco, forçando a imagem e a dor para longe, empurrando-as de volta para o abismo de seu subconsciente. Lena se tornou forte porque não podia se dar ao luxo de ser fraca. O trauma estava lá, submerso, latente, mas ela o empurrava para o fundo, como se enterrasse um tesouro perigoso, ciente de que, se o desenterrasse, ele poderia consumi-la.

     "Consegui isso", ela disse, sua voz um pouco mais alta do que o sussurro anterior, tirando a lata de atum de dentro do bolso empoeirado de sua jaqueta, estendendo-a para Elias. A lata estava suja, mas visivelmente intacta.

     Elias pegou-a, os olhos arregalados, refletindo a luz trêmula da lamparina. A expressão em seu rosto era uma mistura de descrença e uma alegria quase infantil. "Atum? Lena, isso é... é um achado! Um verdadeiro milagre! Onde você..."

     "Supermercado abandonado, três quarteirões ao norte. Estava escondido, sob uma prateleira quebrada e um monte de revistas antigas. Ninguém mais teria notado", ela respondeu, observando o pai com uma pontada de orgulho discreto, uma satisfação silenciosa por sua eficácia. Cada pequeno sucesso, cada item encontrado, era uma faísca na escuridão, uma pequena vitória contra a inevitabilidade da escassez. 

    Ele sorriu, um sorriso raro e fraco que mal alcançava seus olhos cansados, mas que iluminava seu rosto com uma beleza fugaz. Aquele sorriso, tão frágil e tão raro, era a única coisa que ainda conseguia aquecer o coração de Lena, um raio de sol em seu mundo sombrio. Aquele atum, uma trivialidade em outro tempo, um item de prateleira que passava despercebido, era agora um banquete, um símbolo tangível da resiliência deles, da capacidade humana de encontrar vida, de nutrir a esperança, onde só havia morte e desolação. 

    Ao lado do rádio inerte, um lembrete constante de seu fracasso em se conectar, Elias começou a contar os grãos de lentilha que serviriam de base para a refeição. Cada um deles, um testemunho da escassez brutal que os regia, era colocado com reverência em uma panela improvisada. Ele pensou novamente em Éden. Não era apenas um lugar físico, uma cidade fortificada. Era um conceito, uma ideia que se recusava a morrer. A esperança de que a ordem pudesse renascer das cinzas do caos, que a inteligência humana pudesse prevalecer sobre a barbárie, que a civilização não fosse um mero acidente histórico. E, acima de tudo, era a promessa de um futuro para Lena, um futuro que ele sentia ter roubado dela. Éden era a redenção, a chance de cumprir sua promessa paterna. 

    Enquanto a noite se aprofundava, tingindo o céu de um azul-escuro quase roxo, e o frio, silencioso e penetrante, começava a morder a pele exposta, Elias olhou do rádio, um símbolo de sua ineficácia, para a cicatriz escura que o céu havia se tornado, e finalmente para o rosto de Lena, iluminado pela luz trêmula e dançante de uma lamparina improvisada, feita de um pote de vidro e óleo de cozinha rançoso. A chama fraca da lamparina lançava sombras longas e fantasmagóricas nas paredes, dando vida a figuras distorcidas.

     A lenda de Éden era uma chama fraca, sim, quase imperceptível em meio à escuridão avassaladora do mundo, mas ainda brilhava. Era o fio invisível que o puxava para frente, a única melodia que ele conseguia ouvir no silêncio ensurdecedor da rede global que havia se rompido. Era para lá que eles iriam. Era para lá que tinham que ir. Pois, sem essa esperança, sem esse destino, não restava nada além do pó e do frio do mundo em ruínas, a mera e inútil existência. A busca não era mais por um sinal efêmero no éter; era por um destino, um lugar, uma razão para viver, um legado de vida para sua filha, uma promessa de que o espírito humano, mesmo em seu ponto mais baixo, ainda poderia ascender.

Continua...

Clique aqui para comprar o livro

 

domingo, 29 de setembro de 2013

O Príncipe da Névoa - Carlos Ruiz Zafón



Resumo do Livro:
 
O Príncipe da Névoa, de Carlos Ruiz Zafón, publicação da Editora Suma das Letras. Zafón, espanhol de Barcelona que vive em Los Angeles, é muito conhecido pelo livro A Sombra do Vento, que vendeu mais de dez milhões de exemplares no mundo todo. Seus livros mais recentes, publicados pela Editora Suma das Letras, são Marina e O Prisioneiro do Céu.

Livro 1 - O Príncipe da Névoa - Carlos Ruiz Zafón O Príncipe da Névoa, a exemplo do livro Marina (se você quiser, pode ler a resenha clicando aqui), é um livro voltado para o público infanto-juvenil. Foi com o intuito de voltar à minha juventude que eu li esse livro muito legal e foi com espírito aventureiro que mergulhei no mar gelado onde mora Max, um menino corajoso e feliz. Filho de um relojoeiro e de uma dona de casa esmerada em cuidar dos filhos, eles se veem obrigados a mudar de casa e de cidade, fugindo da guerra. Então, todos juntam seus pertences e rumam para uma casa à beira-mar, que foi abandonada pela família anterior.

 “Naquele dia, sem saber, enquanto contemplava a família andando para cima e para baixo com as malas e apertava nas mãos o relógio dado por seu pai, Max deixou para sempre de ser um menino.”

O mistério todo que envolve a casa e a família que a deixou é algo também doloroso. Depois de muito tempo de casados, os Fleischmann conseguiram ter um filho. Um menino saudável que tornou-se a alegria da casa e dos pais. Mas, quando o menino estava com sete anos, morreu afogado e seus pais não conseguiram mais viver no local que lhes trazia tanta dor e lembranças. Por isso, Max, como todo garoto curioso, vasculhou e acabou achando um projetor e alguns filmes que mostram um jardim de estátuas que o deixou fascinado.

Ao visitar pessoalmente o jardim que fica nos fundos da casa, Max sente coisas muito esquisitas e pressente, mesmo sem querer, que há algo muito estranho com aquelas figuras, que parecem mudar. Ora, como pode acontecer isso, as estátuas mudam de posição?

Mas a vida de Max e suas irmãs, Irina e Alicia, segue de forma bem normal. Max e Alicia fazem amizade com Roland, um menino que vive no mar e é criado pelo avô adotivo, que cuida do farol. Víctor Kray cuida do farol que ele mesmo construiu, depois de ser o único sobrevivente do naufrágio no navio Orpheus. O naufrágio até hoje é motivo de buscas por Roland, que frequentemente traz para casa objetos recolhidos do navio, sem nem ter ideia dos perigos que corre.

Então os amigos formam um grupo alegre e feliz, mesmo perseguido por estranhos acontecimentos e pelas fantasmagóricas histórias de Víctor Kray. Tudo isso dará continuidade a uma história cheia de segredos e aventuras inigualáveis, onde estátuas de artistas circenses são somente o começo de um desfecho maravilhoso e cheio de novidades.

O livro é interessantíssimo, cheio de surpresas muito legais. Embora seja classificado como infanto-juvenil, serve para qualquer idade, desde que os leitores adorem suspenses, mistérios e aventuras.

domingo, 22 de setembro de 2013

O Azarão - Markus Zusak



Resumo do Livro:

Cameron Wolfe tem 15 anos e três irmãos mais velhos. São eles: Steve, que na visão de Cameron, é um vencedor; Sarah, que está sempre de amasso com um novo namorado, e Ruben, que é o seu companheiro de peripécias, com quem ele se junta para planejar as próximas armações, das quais só os perdedores são capazes. Eles são gente comum, trabalhadores sem muito recursos, mas como diz a própria sinopse, eles são isso, sim, e muito mais.

Então temos pela frente um livro narrado unicamente por um menino e, de cara, fica claro que, muito mais do que um adolescente típico, temos um cara infeliz com sua vida e suas atitudes. Ele não concorda com o que faz e percebemos que são conflitos de uma maturidade em formação, com as inseguranças e inconsequências dos jovens. A diferença de Cameron é que, mesmo sabendo que é um azarão, ele tenta de todas as formas ser alguém melhor.

Como todo adolescente que luta, ele resolve trabalhar de ajudante do pai e assim acaba conhecendo Rebecca Conlon, a garota de seus sonhos. Ela é tudo e muito mais do que pode querer e ele sabe que, para tentar consegui-la, terá de deixar de ser um perdedor para virar um vencedor.

O autor declara que esse livro tem algo de autobiográfico. Chego a ter certeza que sim, pois o livro é introspectivo e ao mesmo tempo tem algo inquietante, com uma narrativa leve e sem tanta profundidade, com momentos engraçados, com tiradas bem legais, que só quem viveu aquilo é capaz de descrever.

Posso dizer que não chega a ser introspectivo e arrebatador estilo John Green, também não sei se é essa a intenção do autor, mas chega perto, bem perto. A única coisa que acho que não faz o livro ser um grande sucesso é o final, que achei um tanto vago, inacabado. Durante a leitura, achei que o Cameron pudesse ser digno de um encaminhamento melhor de sua vida, mas como o livro é uma trilogia, lerei o próximo para saber como as coisas se desencadearão.

Bom, como citei acima, Azarão é o primeiro livro de uma trilogia chamada Irmãos Wolfe. O próximo livro é Bom de Briga, que já tenho em mãos e em breve trarei a resenha dele para que vocês possam conferir. O livro é fininho, tem 175 páginas e a cada trecho narrado temos o relato de um sonho do Cameron; isso faz com que a narrativa fique mais intimista e real.

Bom, posso dizer que recomendo a leitura desse livro muito legal, onde a narrativa é o diferencial, com trechos em que o narrador conversa com o leitor, deixando tudo ainda mais inspirador e interessante. Indico em especial aos jovens rapazes, que com certeza terão muitas identificações com o personagem principal e seus irmãos e amigos.

Boa leitura, até mais!

sábado, 13 de outubro de 2012

A divina revelação do Inferno (Mary K. Baxter)


Resumo do Livro:

 I - Introdução

Uma caudalosa enxurrada de testemunhos de pessoas que supostamente estiveram no céu ou no inferno tem proliferado no meio dos cristãos evangélicos. São relatos surpreendentes, porém extremamente sensacionalistas e repletos de aberrações teológicas. Revelam ser, na verdade,  produto de uma mente brilhante, capaz de produzir filmes como Guerra nas Estrelas, E.T. e tantos outros, arrancando até mesmo aplausos do gênio da ficção científica hollywoodiana, Steven Spielberg.

A Divina Revelação do Inferno foi publicada originalmente em inglês com o título: A Divine Revelation of Hell, em 1993, nos Estados Unidos. A autora, Mary Baxter, é ministra da Igreja Nacional de Deus, em Washington, EUA. Nasceu em Chattanooga, Tennessee, EUA. Segundo relata, começou a ter "visões" de Deus na década de 60, em Michigan; mas foi em 1976, que Jesus teria aparecido para ela, na forma humana, em sonhos, visões e revelações, durante quarenta noites, e mandou-a transmitir as profundezas, degradações e tormentos das almas perdidas no inferno (pp. 183, 184). 


Entre as pessoas citadas, que indicam o referido livro, encontra-se a Sra. Marilyn Hickey, que num de seus livros ensina ter Noé, sob o efeito da embriaguez,  praticado atos homossexuais com seu neto Canaã, além de dizer que o homem possui a natureza de Deus, tornando-se participante de “todos os seus atributos” [i] . Percebe-se, pois, que a insensatez acompanha não apenas a obra indicada, mas também quem a indicou.

Outro nome de peso é o de David (Paul) Yonggi Cho, que declarou [ii]: "Eu li este livro, tremendo no meu coração. Eu realmente creio que Rev. Baxter teve um verdadeiro encontro com a realidade do inferno na sua experiência da revelação de Jesus Cristo nosso Senhor" (quarta capa). Apesar de ser notável no meio evangélico, o Sr. Cho pode cometer erros (ele não é infalível!); aliás, não seria a primeira vez que ele ensina algo inconsistente (teologicamente falando). Em uma de suas obras, Cho diz que pediu a Deus três coisas: uma escrivaninha, uma cadeira e uma bicicleta; contudo, Deus disse que não poderia atendê-lo pela seguinte razão: Cho não especificou o que queria. Deus lhe teria dito: "Será que você não sabe que há dezenas de tipos de escrivaninhas, cadeiras e bicicletas? Mas você simplesmente pediu-me uma escrivaninha, uma cadeira e uma bicicleta. Não pediu uma escrivaninha específica, nem uma cadeira nem uma bicicleta específicas". [iii] Sem perceber, o Sr. Cho atentou contra a onisciência de Deus que, segundo o próprio Jesus, sabe de tudo  que necessitamos, antes mesmo de pedir (Mateus 6:25-32).

Assim, devemos analisar as declarações da Sra. Baxter à luz da Bíblia, e não nos fiarmos em declarações de pessoas que, assim como nós, estão propensas a análises errôneas, não importa quão afamada seja tal pessoa no círculo cristão (Atos 17:10, 11).

III - Contradições
  
O caráter contraditório de algumas declarações desqualificam a "revelação" da Sra. Baxter. Por exemplo: na p. 16 encontramos a suposta declaração de Jesus para ela: “Minha filha, levarei você até o inferno (...). Quero que escreva um livro e conte todas as coisas que vou revelar a você” (grifo acrescentado). Desobedecendo à ordem de Jesus, porém, ela comenta na p. 20: “Algumas coisas, por serem horríveis demais, não consegui passar para o papel” (grifo acrescentado). Ora, por mais que a mensagem a ser transmitida fosse dura, os profetas de Deus declaravam o que ele ordenava, independentemente do que sentiam a esse respeito; tal foi o caso de Jonas, Jeremias, Oséias e outros. A Sra. Baxter revela não possuir características próprias de um profeta de Deus. Para terminar o festival de contradições, diz: "Como obreira de Deus, submeti-me ao comando de Nosso Senhor Jesus Cristo e registrei fervorosamente as coisas que me foram mostradas e reveladas por Ele" (p. 181) — grifo acrescentado.

IV - O Inferno

A Sra. Baxter relata sua "visita" ao inferno nos seguintes termos: "Jesus veio a mim em 1976 (...). Jesus levou-me ao inferno por um período de 40 dias [iv] . (...) No mesmo momento, minha alma foi retirada do meu corpo. Saí com Jesus do meu quarto em direção ao céu. (...) Meu corpo permanecia na cama, enquanto o meu espírito ia com Jesus através do telhado da casa. (...) Depois, começamos a subir cada vez mais e eu já podia ver a Terra embaixo. Saindo dela, de vários pontos, haviam tubos girando em direção a um ponto central, indo e vindo. Eles se moviam como gigantes, continuamente e envolviam a Terra toda. (...) "São os portões do inferno" (pp. 11, 16-18).
A imaginação da Sra. Baxter é fertilíssima. Ela retrata o inferno como se fora um corpo humano. O livro tem alguns capítulos interessantes, como, por exemplo: A perna esquerda do inferno (02), A perna direita do inferno (03), O ventre do inferno (07), O coração do inferno (10), O braço direito do inferno (13), O braço esquerdo do inferno (14), As mandíbulas do inferno (19) etc. Relata a Sra. Baxter (aparentemente citando as palavras de Jesus): "O inferno tem a forma de um corpo (semelhante à forma humana) deitado no centro da Terra. Ele tem a forma de um corpo humano - grande e com muitos compartimentos cheios de tormentos (...). O corpo está deitado de costas, com os braços e as pernas estendidas para fora" (pp. 31, 32, 52, 53). Nada há na Escrituras (nem mesmo na literatura apócrifa) que apóie essa versão da Sra. Baxter.

V - Curiosidades Infernais

O inferno da Sra. Baxter é sui generis. Nada há igual. Numa realidade totalmente espiritual, a Sra. Baxter usa e abusa de seu profuso talento artístico. Veja o que ela "viu" no inferno:
·      Ratos e serpentes (p. 53). Como foram parar ali?

·      Uma alma — com coração e sangue — dentro de um caixão (p. 57). De que era feito esse caixão, só a Sra. Baxter sabe.

·      Uma mulher presa numa cela, cujas paredes eram de "barro" e a porta de "um metal escuro com barras e uma fechadura", e sentada numa "cadeira de balanço, balançando e chorando copiosamente" (p. 70). Pelo que parece, o inferno anda contratando pedreiro, ferreiro e carpinteiro.

·      Há uma cena curiosa: Satanás está despachando com um grupo de mulheres, instruindo-as para enganar a muitas pessoas. De repente, "uma estante alta foi trazida para perto de Satanás e lá havia muitos papéis. Ele pegou alguns e começou a ler para as mulheres" (p. 63). De que eram feitos aqueles papéis que não queimavam nas profundezas ardentes do inferno da Sra. Baxter?

VI - Aberrações doutrinárias

Doutrinariamente, Baxter se revela herege ao ensinar um conceito errôneo sobre a Trindade. Ela afirma ouvir de Deus, o Pai, o seguinte: "O Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma única pessoa" (p. 158) - grifo acrescentado. Essa heresia, que não faz distinção entre as "pessoas" da Trindade, chama-se patripassionismo (ou modalismo, também conhecida como sabelianismo). Para os patripassianos, foi o próprio Pai que assumiu a natureza humana, sofreu, morreu e ressuscitou. Diziam que a expressão "Filho" refere-se à carne de Jesus (= natureza humana), e que "Pai" é o elemento divino unido à carne (= Deus) [v] . Hoje, muitas seitas ensinam tal heresia, como por exemplo o Tabernáculo da Fé, Igreja Pentecostal Unida do Brasil, Igreja Voz da Verdade, Testemunhas de Ierrochua etc. 

No inferno da Sra. Baxter, Satanás jamais sofre; ao contrário, ele conta com um "Centro de Divertimento" (p. 80), onde ele e seus demônios deleitam-se com a desgraça alheia (p. 82). O apóstolo João, porém, diz que Satanás, ao invés de ter um "centro de divertimento", será atormentado pelos séculos dos séculos (Apocalipse 20:10).

VII - Torturada no Inferno

Ao visitar o "coração" do inferno (capítulo 10), juntamente com Jesus, ele a abandonou, entregando-a aos demônios. Ela conta que sofreu tormentos, foi aprisionada, ajoelhou-se diante de Satã. Diz Baxter: "espíritos na forma de morcegos me mordiam por toda parte" (p. 90). Ao indagar de Jesus a razão desse incidente, a resposta foi: "Minha filha, o inferno é real. Mas você jamais poderia ter certeza até que experimentasse por si mesma. Agora você sabe da verdade e o que é estar perdido para sempre lá. Você poderá relatar para os outros a sua experiência, sem sentir nenhuma dúvida" (p. 92). O "Jesus" que conduziu a Sra. Baxter ao inferno não era o Jesus da Bíblia (II Coríntios 11: 4). O que a Sra. Baxter conheceu não se deu por satisfeito e, após essa experiência traumática, enviou-a mais uma vez para os tormentos infernais, desta vez às mandíbulas do inferno (capítulo 20). Depois de entrar em colapso, ela declarou que queria "estar bem longe – longe de Jesus, da minha família e de qualquer pessoa" (p. 92). Certamente que o Jesus dos Evangelhos não submeteria nenhum de seus "irmãos" a horrendas atrocidades, como se ele fosse um carrasco nazista.

VIII - Sábios conselhos

Não há muito que aproveitar d' A divina revelação do inferno. A Sra. Baxter deveria levar a sério o que seu "Jesus" lhe disse: "Mantenham-se afastados dos falsos profetas que falam em Meu nome e espalham doutrinas falsas. Despertem! Despertem!" (p. 114). Para concluir, o "Jesus" da Sra. Baxter revelou medíocre conhecimento sobre o inferno, mas, em contrapartida, estava certo quando disse: "Minha filha, algumas pessoas ao lerem o livro que você vai escrever, acharão que tudo isso é uma obra de ficção" (p. 129). Dito e feito!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Carta aos Romanos (Karl Barth)


Resenha do Livro:

Um clássico da teologia do século 20, este comentário de Barth da Carta aos Romanos é leitura indispensável para quem quer entender os rumos da teologia contemporânea. 

Muito Mais que um comentário da epístola paulina, de enorme importância para estudiosos do Novo Testamento, trata-se de um tratado teológico que ficou conhecido como responsável pelo golpe fatal contra o liberalismo neokantiano do Século19. 

Karl Barth tem sido avaliado por muito como o maior teólogo do século 20. Considerando-se um pensador cristão reformado e ortodoxo (daí o epíteto neo-ortodoxo que Barth não apreciava), Barth combateu as diferentes formas de liberalismo teológico, de Schleiermacher a Bultmann. 

Mesmo assim é considerado por muitos críticos conservadores como criptoliberal e um pensador heterodoxo. O exame das fontes primárias por cada estudioso parece ser o melhor caminho para entender melhor este controvertido autor. E nada melhor que começar pelo primeiro livro de destaque de Barth: Carta aos Romanos. 

Esta edição do texto completo da obra traduzido diretamente do original alemão com comentários pelo tradutor Lindolfo K.Anders, um dos maiores estudiosos do pensamento de Karl Barth no Brasil.

O Segredo (Rhonda Byrne)

Resumo do Livro:

Atenção, isto é apenas um resumo do livro, o que não quer dizer que eu coadune com as ideias manifestadas no mesmo (Edson Moura)

 O SEGREDO revela incríveis estórias e testemunhos da vida real, de pessoas comuns que mudaram suas vidas de modo profundo. Aplicando "O SEGREDO" eles apresentam exemplos de como erradicar doenças, adquirir riquezas volumosas, superar obstáculos e alcançar o que muitos poderiam julgar ser impossível de ser alcançado.

 HÁ SEGREDO para tudo - para a alegria ilimitada, saúde,dinheiro, relações, amor juventude: tudo que você já quis algum dia. Espero que ao ler este resumo, você possa usá-lo como um grande poder motivacional para destravar o seu potencial individual que sempre esteve inexplorado.

"O SEGREDO É A RESPOSTA PARA TUDO O QUE FOI, TUDO O QUE É E TUDO O QUE ALGUM DIA SERÁ".    (Ralph Waldo Emerson - 1803-1882)
 Tudo que vem até você é atraído por você mesmo. É atraído até você pelas imagens que você mantém em sua mente. È o que você está pensando. Tudo que passa na sua mente é atraído até você. Os babilônios sempre souberam disso. São grupos privilegiados de pessoas. Porque você acha que 1% da população mundial ganha cerca de 96% do dinheiro que é gerado em todo o planeta? Você acha que isso é um acidente? Isso não é um acidente! È planejado dessa forma. Eles sabem de algo, entendem algo. Eles entendem O SEGREDO. E nesse exato momento, você está sendo apresentado ao SEGREDO.

 O modo mais simples, a meu ver, de SE encarar a LEI DA ATRAÇÃO é imaginar a si mesmo como imã. Um imã atrai outro imã.

 A LEI DA ATRAÇÃO. Nela você se torna aquilo no qual mais pensa, mas também atrai aquilo no qual mais pensa.

 Pensamentos emitem um sinal magnético que atrai um sinal semelhante de volta para você. Muitas pessoas pensam naquilo que elas NÂO querem e se perguntam porque essas coisas aparecem repentinamente na vida delas.

 ALEI DA ATRAÇÃO não quer saber se você busca algo que seja bom ou ruim ou se você quer ou não quer determinada coisa. Ela simplesmente responde aos seus pensamentos. Se você fica olhando para um monte de dívidas e se sentindo mal a respeito, este é o sinal  que você está enviando para o universo. "Eu me sinto muito mal por conta desses monte de dívidas que eu tenho". Você está afirmando isso para você mesmo. Você sente essa situação ruim profundamente em todos os níveis do seu ser. Assim, você terá mais duvidas ainda.

 Quando você olha para algo que você quer e diz SIM para esse algo, você está ativando o pensamento e a lei da atração responde a esse pensamento e lhe traz coisas que combinem  com esse algo. Quando você olha para algo que você não quer e diz NÃO para esse algo, você, na verdade, não afasta esse algo. Você está ativando o pensamento relacionado ao que você não quer e a lei da atração trata de trazer mais desse algo para você.Este é um universo que se baseia em atração. TUDO está relacionado  à atração.

A LEI DA ATRAÇÃO TRABALHA O TEMPO TODO, QUER VOCÊ ACREDITE NELA, ENTENDA-A OU NÃO.

A LEI DA ATRAÇÃO DIZ: nós lhe daremos o que quer que você diga e no que quer que você se encontre. Então se você reclamar de quão é a situação, criará mais dessa mesma situação.
 A vida pode ser absolutamente fenomenal. Deverá ser e será, assim que você passar a usar o segredo.

"SUBA O PRIMEIRO DEGRAU COM FÉ. VOCÊ NÃO PRECISA VER A ESCADARIA INTEIRA. APENAS DÊ O PRIMEIRO PASSO" Martin Luther king - 1929-1968

"TUDO QUE NÓS SOMOS É RESULTADO DAQUILO QUE PENSAMOS NO PASSADO". Siddhartha Gautama Buda

"A IMAGINÇÃO É TUDO, É A PRÉVIA DAS ATRAÇÕES FUTURAS". Albert Einstein - 1879-1955
"TUDO QUE A MENTE DO HOMEM PODE CONCEBER ELA PODE ALCANÇAR".  W.Clement Stone - 1902-2002

"QUER VOCÊ PENSE QUE PODE OU QUE NÃO PODE, VOCÊ ESTÁ CERTO".   Henry Ford - 1863-1947

Há apenas um riacho de bem-estar e alegria que corre. È o riacho da energia positiva pura. E o universo, tudo que nos conhecemos, está provido abundantemente com essa energia. Esse é o mundo que se baseia no bem estar. E quando você permite que esse riacho corra em sua totalidade, sente-se muito bem. E quando você não permite que esse riacho corra, sente-se mal. È o seu riacho de bem estar ou bondade que você está permitindo ou negando. Nossas emoções magníficas nos informam como está o balanço entre "permissão” e "negação".

O LIVRO:
Título original: The Secret/ by Rhonda Byrne
No Brasil O Segredo
Páginas: 196
Ano: 2006





Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...