quarta-feira, 18 de julho de 2012

As quatro fases da vida humana



Por: Marcio Alves

Assim como o tempo é marcado por quatro estações, sendo elas primavera, verão, outono e inverno, e cada uma delas sendo diferentes umas das outras, tendo sua singularidade e importância, assim também o é o ser humano que vive quatro estações de vida distintas, e, todas elas com inicio e fim, com toda sua longa e efêmera trajetória de vida, que será marcada diferentemente em cada uma delas, sendo em todas, ele mesmo, mesmo que ele não seja o mesmo, pois assim como o tempo está a mudar constantemente, também somos “condenados” passar pela metamorfose do tempo e experiências, umas belas, outras trágicas, mas todas elas de fundamental importância para nos levar a ser que somos e quem não somos.

Primavera é quando nascemos e passamos a existir na existência do mundo, sendo esta estação o inicio do começo de tudo na nossa vida humana e de tudo que esta ainda por vir, aonde começa a brotar e florir as primeiras flores coloridas de nossa insignificante e bela existência. Nessa estação, tudo é novo, belo e mágico, onde tudo é marcado pelo tempo que parece ser eterno, aonde vamos vivendo as primeiras experiências da vida.
Parece que toda caminhada trilhada humana para frente, na verdade é um caminho de busca para trás, de volta para o inicio, para as primeiras recordações da primavera.

Na segunda estação da vida, chamada de verão é quando somos jovens, estamos no auge da vida com pleno vigor físico, intelectual e sexual, onde somos atraídos pela nossa exuberância de beleza e desejo de viver cada vez mais intensamente, onde não nos preocupamos com a vida, e muito menos com a morte. Alias é nesta fase que temos a sensação de onipotência, que parece que somos imortais e eternos, não conseguimos ainda imaginar que podemos a qualquer momento morrer, pois só queremos aproveitar e viver intensamente a vida. São raros os momentos de raríssimos lampejos do frio que ainda esta para chegar em nossas vidas.

Já na terceira estação da vida que é o outono, é o momento de maior crise e dor é quando nos vemos impotentes, seres finitos, condenados irremediavelmente a velhice para depois a morte e ao fim do ciclo da vida. É a fase das crises de valores, ideais, objetivos e motivações, onde paramos para analisar os caminhos trilhados, descaminhos jamais aventurados. Infelizmente é um momento de dor, da consciência de que muitas das coisas que sonhamos não se concretizaram e nem que vão se concretizar. É a hora da verdade conosco mesmo, do enfretamento da vida tal como ela é, e não como idealizavamos que fosse ser. Nessa fase da vida, não há mais tantas flores, vemos o nosso mundo muitas vezes em preto e branco, não sentimos mais o calor do verão, e a nossa vida como historia parece esvair pelos nossos dedos como areias assopradas e espelhadas pelo vento frio e indiferente do inverno inevitável que se aproxima.

Finalmente, chegamos ao nosso ultimo estagio que é o inverno, nele, não estamos mais em crise conosco, sabemos que o nosso fim é inevitável, que resta apenas poucos anos de vida.
Já não há mais crise, mas apenas o frio da noite escura que sombriamente se aproxima de nós.
Mas já não há mais medo e resistência, como luta contra a morte, mas apenas a aceitação do destino inexorável de nossas vidas. E o que fica é uma consciência madura, sábia, ainda cheia de vida, num corpo “morto” pela velhice sem esperança e sonho juvenis, já sem o vigor físico de outrora, marcado pelas inúmeras tragédias, tristezas, sofrimentos, mas também pelos amores e experiências nostálgicas vividas no tempo mágico da primavera e verão de nossas vidas.

E a pergunta que restará a todos nós respondermos através da experiência das quatro estações é: a vida que vivemos, todas as tristezas como alegrias, derrotas como vitorias, conquistas como frustrações, valeu apena mesmo ser vivida?
Tenho a sensação de que esta pergunta começa a ser respondida no primeiro momento em que nascemos, pois não são as palavras que irão responder esta pergunta, mas sim a nossa própria existência.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Crônicas de um catador



Por Edson Moura

Seis horas da manhã, é hora de levantar, mas pense num trabalho Hercúleo. Seria tudo mais fácil se naquele tempo houvesse água jorrando por um chuveiro, coisa que só conheci pessoalmente depois dos 15 anos. Vamos menino! Deixa de moleza! Era o que dizia minha mãe. Ela não queria saber se eu passara a madrugada toda recolhendo água à conta gotas no chão de barro do quintal. Muitos não acreditam, mas eu e meu pai tivemos que cavar um buraco de aproximadamente 1 metro de profundidade para que a água conseguisse subir até a torneira, era uma luta conseguir encher um tambr com 30 litros d'agua.

Nos dias de quinta feira, nós, meu irmão mais velho e eu, íamos às 5 da manhã até uma padaria que vez ou outra nos dava alguns pães de queijo velhos. No caminho de volta imaginava se teria sido com um daqueles pães que Davi matou Golias. Provavelmente sim. Bom, mas vamos falar da escola: A escola era minha alegria, adorava estudar, ficava um pouco deslocado é claro, pois o colégio ficava num bairro nobre de São Paulo, no Brooklin, e boa partes dos alunos eram de classe média. (não sei se naquela época existia essa divisão de classes,para mim era só o rico ou só o favelado)

Mas, deslocado por quê? Ora, minhas havaianas (hoje é chique usar, mas na minha época de escola era coisa de pobre mesmo), muitas vezes com um prego atravessado numa das tiras que havia arrebentado, não combinavam com os tênis de marca que os “boyzinhos” usavam, por isso, sentia vergonha. Mas que se dane, eu vim aqui foi pra estudar (pensava), e se não passasse de ano com notas boas, minha mãe certamente me submeteria a desagradábilíssima experiência de apanhar com um fio de ferro. Estudei até onde pude. Repeti a quinta série, por pura vagabundagem, mas no ano seguinte, mesmo vitimado por um incêndio que lambeu nosso barraco na favela do Jardim Edith, consegui me superar e ganhei o prêmio de melhor aluno de todas as quintas séries. Foi motivo de orgulho para mim, não para minha mãe, que provavelmente só se alegrou pelo fato de eu ter ganhado todo material escolar da sexta série, com mochila, canetinha, apontador, e tudo mais. Ah! Talvez meu irmão Vitor tenha se orgulhado.

Certa feita, nesse ano que virei o “diabo” e comecei cabular aula para ir roubar bonequinhos dos “comandos em ação” no extinto supermercado “Paes Mendonça” (peço a Deus que não tenha falido por causa dos meus roubos), fui pego com a "mão na massa". Rapaz, que sufoco que eu passei. Tive que lavar todos os banheiros dos funcionários (mais ou menos uns cinquenta), e ainda por cima sem meus óculos, ou seja, praticamente cego, tendo que ouvir piadinhas dos seguranças. Foi nesse dia que joguei um balde cheio de cloro num dos guardas, sério, se não fosse o gerente (Belina era o nome dele) provavelmente eu seria afogado numa daquelas privadas sujas, se bem que perto da surra que levei ao chegar em casa, morrer afogado numa privada teria sido menos doloroso. Eu era miudinho, mas era folgado que só!

A rotina era a seguinte: Como disse lá no começo, levantava às seis da manhã, ia pra escola, e saia por volta de onze e meia. Passava na barraquinha de doces do “Seu Siciliano”, roubava algumas balinhas, ou, quando dava sorte, um pacote de salgadinhos de cebola (que até hoje adoro), chegava em casa, dava uma geral. Varria o chão, lavava a louça, passava pano, dobrava as cobertas, tudo isso não sem antes me engalfinhar com eu irmão mais velho, pois sempre me senti lesado na divisão das tarefas. Pôxa! Lavar a louça e varrer a casa é mais difícil que passar pano e tirar pó, e não queiram nem saber como é que se lavava louça sem agua encanada, usando um potinho de "Doriana" para pegar agua dentro de um tambor que, hoje sei, estavam cheios de larvas de mosquitos.

Por volta de duas horas da tarde saímos para “catar ferro velho”. Para quem não conhece, é mais ou menos assim: Chegávamos no “Ferro velho do Marcelo", na rua James Watt, pegávamos um carrinho pequeno, desses feitos com geladeiras velhas, e saíamos para pedir jornal velho, papelão, latas usadas, íamos na “Retel” para pegar chumbo derretido, etc. Quase sempre ganhávamos roupas seminovas, que alguma alma benevolente separava para doação, ou alguma comida. Lembro que uma vez ganhei uma bicicleta novinha em folha. Acho que o filho da madame não gostou da cor, sei lá, então ela me deu. Mas nunca tive o prazer de dar umas boas pedaladas nela, pois meu pai a deixava trancada com o cadeado, certamente porque sabia que se saíssemos na favela com ela, alguém iria tomar da gente. Senti uma pontinha de satisfação quando nosso barraco incendiou e eu vi a pobre bicicleta ali, toda retorcida e com os cadeados ainda a prendendo. Pensei: Toma besta! " Quem guarda com fome o rato come"

A coisa ruim de se catar ferro velho por perto de onde se mora é que consequentemente você irá bater na porta de algum amigo de colégio, e eu, como sou azarado ao quadrado, quase todo dia encontrava um dos meus colegas. Abaixava a cabeça para não ser reconhecido mas era em vão, impossível não me identificar pelos óculos (desses que hoje o Jô Soares usa e é moda, mas na minha época era feio pra caralho). No outro dia, eu já entrava na sala de aula desconfiado, cabrero,  rezando para o filho da mãe que me viu catando papelão não me denunciar aos demais alunos. Errado de novo. A zuação era total e só parava quando eu, num misto de ódio, e vergonha, começava a chorar calado. Muitas vezes chorei de soluçar, e só parava quando um dos professores vinham em meu socorro. Nem sempre vinham. 

Uma vez, durante a aula de português com a Dona Cleunice (professora que até hoje acredito que me odiava), lemos um texto que se chamava “Burro sem rabo”, de Heloísa Seixas eu acho. Mas ninguém sabia o que significava a expressão. Eu sabia. Mas o Fúvio, o mais inteligente, e o mais rico de nós, filho de médicos, tratou logo de bradar. Ah professora! Burro sem rabo é o Edson. Meu coração podia ser ouvido a quilômetros de distância, senti o rosto corar e o suor começar  a brotar em cima do nariz, comecei a me encolher na cadeira, querendo desaparecer dali, mas já era, estava feito, quem até aquele momento não sabia que eu era catador de papel, agora já sabia e não tardaria para o apelido “burro sem rabo” pegar. E Pegou mesmo. Senti vergonha mais uma vez.

Sobrevivi até a sétima série, foi quando por extrema necessidade financeira, precisei abandonar os estudos para trabalhar em dois empregos. Lembro que chorei no primeiro dia de"não ir à escola”, mas o tempo é um pai longânime e tratou de me curar. Superei os traumas, cresci, casei, tive quatro filhos, e hoje, vinte e dois anos depois, sentado na adega de  um restaurante Francês em que trabalho como Sommelier, escrevo a crônica da minha vida. Fico assustado com a clareza das lembranças, e com a dor que ainda sinto. Vocês podem se perguntar: E o que me levou a escrever isso? Ora, foi uma propaganda na televisão onde algumas celebridades se intitulam “sou catador” ou “sou catadora”. Mentira, eles nunca poderão sentir a dor que sente um catador, a alegria por ganhar um par de sapatos velhos que ainda podem ser usados. Jamais saberão o valor que dez quilos de jornal vendido pode ter. Eu sei! Dez quilos de jornal têm o valor de dois pãezinhos que alimentarão seus filhos por mais uma manhã. Hoje não sinto mais vergonha.

domingo, 8 de julho de 2012

O que um ateu pensa da morte




Por: Marcio Alves

Já escrevi alguns textos sobre a morte, dentre eles talvez o mais importante seja mesmo o profundo e filosófico “A morte em dois momentos”, mas sabendo que constantemente estamos sempre mudando e consequentemente atualizando nossa maneira de ver e viver a vida, resolvi então escrever o que penso hoje sobre a morte.

Um texto simples, sincero e objetivo sem o rigor do academicismo que muitas vezes atrapalha mais do que ajuda na compreensão dos leitores.

A morte, assim como o nascimento, são as duas únicas coisas que temos que passar sozinhos, embora muito mais a morte seja mesmo o momento mais angustiante e dramático de toda nossa existência, não o depois, mas aqueles momentos que a antecedem, que eu chamo de “pré-morte”, que é aquelas experiências de quase morte que muitos de nós experimentamos em algum momento de nossas vidas.

Nada mais profundo do que a experiência de ir ao velório de um amigo ou parente nosso, pois só nesses momentos, da “pré-morte” e da “morte do outro” é que são capazes de tirar o ser humano de sua anestesia diária, como trabalho, diversão, lazer, hobby e etc, levando a refletir seriamente sobre a sua própria morte.

Pois saiba meu amigo leitor, que uma coisa é você ler alguns livros e pensar sobre a morte de maneira geral, outra completamente diferente é pensar a sua própria morte. É como você ler sobre pessoas com câncer, e, um belo dia você ir ao medico para fazer exames de rotinas e sem “querer” descobrir que esta com um câncer. Consegue agora perceber a diferença?

Para aqueles que nunca enterraram seu próprio amigo, pai, mãe, filho ou irmão, ou não vivenciaram uma experiência real de “pré-morte”, vão apenas entender com o intelecto este texto, pois só aquele que já vivenciou uma das duas maneiras de estar “cara a cara” com a morte é que irá conseguir ir para além do intelecto “sentindo” de maneira visceral as palavras escritas.

Assim como o câncer que na verdade é uma morte lenta e progressiva, a própria iminência de uma possível morte por outras maneiras e experiências vem para por em xeque tudo que achávamos ser importante em nossas vidas, e para colocar uma pergunta crucial que constantemente tentamos esquivar dela: “Porque e para que viver?” “Faz sentido a vida que temos levado?” “Qual o sentido real de viver?” (As três perguntas na verdade é uma só, apenas feita de maneiras diferentes para você refletir melhor)

Não importa se você seja religioso ou ateu, pois na verdade, no fundo no fundo minha opinião é que não existe na pratica uma separação entre ateu e religioso quando falamos da morte, embora na teoria exista sim uma divisão. É que não acredito na transformação e mudança na natureza humana quando falamos da pessoa acreditar ou desacreditar na religião e/ou em Deus, pois se sendo ateu ou religioso, continuamos sendo humanos, demasiado humanos, e como os existencialistas já falavam, somos seres em angustia, sendo a angustia uma marca registrada da natureza humana.

A única diferença entre o religioso e ateu em relação à morte é no autoengano; pois o primeiro (religioso) se engana na certeza de acreditar que ao morrer vai estar no paraíso, já o ateu com seu pensamento “tranquilizador” de que “morreu acabou”, e que por isso não tem o que se preocupar e ter medo. Mas que falsa certeza esta do religioso e do ateu!

A partir do momento que o homem teve a sua consciência despertada, seja pela própria morte como a maior responsável por isto, ele já se vê mergulhado em angustia, e, por isso mesmo, nós precisamos tanto ocupar nossa mente com tudo que estiver disponível, seja trabalho, festas, e tudo o mais, é como pascal já dizia que o homem que vai caçar, ele caça um animal que ele mesmo não teria a coragem de comprar num mercado, mas ele caça para distrair sua mente, para fugir de estar só consigo mesmo, e com a realidade inevitável de sua própria morte – e este exemplo serve para tudo que fazemos na vida!

Por isto meu caro leitor que chegou até aqui, lendo “pacientemente” esta minha postagem para descobrir como um ateu encara a morte, eu lamento decepciona-lo, mas nós encaramos do mesmo jeito que qualquer outra pessoa encara: com grande angustia, medo, tristeza, dor e duvida em saber que a nossa morte não é uma possibilidade que pode ou não acontecer,  mas uma realidade e certeza absoluta de que nós que aqui estamos, vamos um dia não estar mais....para quem acha que a consciência é um dom, eu diria que tenho lá as minhas duvidas, pois acho mesmo que é uma maldição, e que se os deuses existem mesmo, são cruéis e estão se divertindo com nosso sofrimento.

domingo, 1 de julho de 2012

As imagens do humano em Deus




Por: Marcio Alves

 "O homem encontra e desenha o “in-desenhado” e “in-contravel” Ser em seu próprio e limitado ser existencial, com sua mentalização e sentimentalização de aperceber e apreender o divino em si, pois deus só pode ser deus de cada individuo, sendo um espelho a refletir a imagem do homem que diz servir-lo, mas que na verdade é servido para si mesmo, para as suas projeções auto projetadas da sua psique inconsciente"

O Ser supremo nomeado pelo humano de “Deus” do alto de sua infinita e desconhecida imagem é não tendo uma imagem limitada que possa descrever e enquadrar seu ser, pois todas as imagens criadas foram e serão “in-criadas” a partir dele mesmo, não sendo e não podendo ser exata, mas si sendo real nos corações de quem sente e fabrica, pois é na verdade a realidade singular do sujeito que vai de si para si mesmo, não sendo o absoluto, por isso é relativizada pelos homens, não para a gloria do Ser, mas para a própria gloria terrestre do humano.

"(...) projeta sua autoimagem dele e para ele, declarando e sistematizando o divino de sua percepção nele mesmo, sendo posto no pedestal da adoração, adorando o Ser de sua imaginação"

O homem encontra e desenha o “in-desenhado” e “in-contravel” Ser em seu próprio e limitado ser existencial, com sua mentalização e sentimentalização de aperceber e apreender o divino em si, pois deus só pode ser deus de cada individuo, sendo um espelho a refletir a imagem do homem que diz servir-lo, mas que na verdade é servido para si mesmo, para as suas projeções auto projetadas da sua psique inconsciente.

"A figura das imagens esculpidas da não realidade visível, pintadas e moldadas pelo caráter e temperamento do próprio homem, tem sua gênese da não descoberta empírica do grande assombro, sendo desenvolvida a prematura necessidade de necessitar verbalizar o inefável, com os mais variados sons antropológicos das sociedades"

Pensando ter finalmente encontrado o supremo Ser do universo, mas sem saber que não achou Ele, projeta sua autoimagem dele e para ele, declarando e sistematizando o divino de sua percepção nele mesmo, sendo posto no pedestal da adoração, adorando o Ser de sua imaginação, embora seja Ele (Deus) mesmo não outro, para o individuo que revela o seu desejo de procurar pela busca de encontrar no encontro que se dá consigo mesmo, sendo real e verdadeiro para milhões que experimenta a experiência deste encontro que nomeia-se Deus.

"Mas a grande ilusão é iludir-se a si mesmo dizendo que este desenho pintado, esta musica tocada, esta linguagem decifrada, este sons ouvidos, “sentido sentido”, da não materialização, visibilidade e compreensão do divino no humano em formas do saber pensado, construído, intuído, sentido e finalmente crido pelo seres humanos, ser o mesmo Ser, sendo que nunca foi e nunca será, pois se algum dia for, então mesmo assim pode concluir o saber que não passou de não saber"

Pois o Ser sabendo que não poderia ser exaurido pelo conhecer das percepções do pensamento e sentimento da averiguação minuciosa da criatura, deixa sua própria marca de pegadas sutis na areia da vida subjetivada pela nitidez da percepção humanista, para que mesmo através das autoimagens criadas, possa ser revelado que Ele é e que existe existindo em cada realidade existente na criatura viva.

A figura das imagens esculpidas da não realidade visível, pintadas e moldadas pelo caráter e temperamento do próprio homem, tem sua gênese da não descoberta empírica do grande assombro, sendo desenvolvida a prematura necessidade de necessitar verbalizar o inefável, com os mais variados sons antropológicos das sociedades.

"O homem revela quem é mostrando no que crer e quem é o que ele crer, pois a sua crença é uma revelação de si mesmo e não do supremo Ser (...)"

Mas a grande ilusão é iludir-se a si mesmo dizendo que este desenho pintado, esta musica tocada, esta linguagem decifrada, este sons ouvidos, “sentido sentido”, da não materialização, visibilidade e compreensão do divino no humano em formas do saber pensado, construído, intuído, sentido e finalmente crido pelo seres humanos, ser o mesmo Ser, sendo que nunca foi e nunca será, pois se algum dia for, então mesmo assim pode concluir o saber que não passou de não saber.

"Com este texto o que eu proponho hoje, não é a questão “Se Deus existi ou não”, mas que mesmo existindo, se partimos desta premissa, todos os Deuses de todas as religiões e crenças não passam de criações humanas, e, que “Deus mesmo” é totalmente desconhecido por nós, o que equivale a dizer “Deus não existe!”, ou seja, para o homem não há um Deus existindo fora dele, perdido em  algum lugar no universo, mas antes, dentro dele"

O supremo Ser não sofre influencia das influencias humanas, sejam negativas ou positivas, pois não é processado no seu desenvolvimento como se fora uma criatura, pois não é sendo o criador, vê em si mesmo e não no reflexo dos homens, ser suficientemente suficiente com Ele e para Ele.

O homem revela quem é mostrando no que crer e quem é o que ele crer, pois a sua crença é uma revelação de si mesmo e não do supremo Ser, pois não passa de sua auto imagem e descoberta, se modelando em sua crença, formando e definido quem realmente ele é no que pensa ser o grande Ser, mas não sendo para ser quem realmente é o seu oculto ser revelado nas inúmeras imagens da psique humana.



P.S.: Texto escrito por mim em 08/03/2010 quando estava no final do processo de descrença, nesta época a ultima das crenças que ainda restava em mim era a crença em “Um Ser Superior”.

Com este texto o que eu proponho hoje, não é a questão “Se Deus existi ou não”, mas que mesmo existindo, se partimos desta premissa, todos os Deuses de todas as religiões e crenças não passam de criações humanas, e, que “Deus mesmo” é totalmente desconhecido por nós, o que equivale a dizer “Deus não existe!”, ou seja, para o homem não há um Deus existindo fora dele, perdido em  algum lugar no universo, mas antes, dentro dele.





sábado, 30 de junho de 2012

Pobres Ateus por Edson Moura


                                                       
Pobre de nós ateus que, como cordeiros ingênuos, caímos em covis de lobos ferozes. Pobres de nós ateus que somos vilipendiados pelos intolerantes crentes, e não temos nem sequer a oportunidade de manifestarmos nossa opinião, pois tudo que falamos é tolice. Crentes estes que esqueceram que divino era só o mestre Jesus, e eles, assim como nós ateus, tombaremos sobre a mesma terra e apodreceremos a medida em que somos devorados pelos vermes. Vermes estes que, ao contrário do que disse o messias, acabará ao ver que nada de nós existe mais para ser consumido.


Pobre de nós ateus, que no início de nossa descrença ficávamos preocupados com o fato de nossas atitudes estarem fazendo mal aos irmãos que ainda creem. Pobre de nós ateus que não falamos para nossos filhos e para nossas velhas e crentes mães que Deus não existe mesmo. Pobre de nós ateus que nos calamos quando lá dentro, uma voz implorava para que gritássemos nos ouvidos dos crentes que nos aporrinham o saco com suas idiotices, que Jesus não salva ninguém, que céu é lugar de zumbi, e que é preciso ser por demais burro para acreditar em histórias tão absurdas como as que são contadas na Bíblia "Constantinizada".

Pobre de nós ateus que sofremos... sim, sofremos ao ver que não adianta nada falar que a ilusão da fé é o maior freio-social que já puderam impingir ao homem. Sofremos por vermos nossos irmãos... sim, irmãos, padecerem sob o jugo de pastores, padres, líderes espirituais de todos os tipos, sendo levados para um caminho de negação, flagelação de consciência, repressão de desejos humanos, (desejos estes, demasiado humanos), estoicismo em pleno século XXI e falência de intelecto.

Pobre de nós ateus, que não queremos o mal de ninguém, que procuramos viver em paz com todos, que desejamos ajudar, ou melhor, agimos em prol daqueles que necessitam de auxílio, seja ele financeiro, sentimental, ou moral. Pobre de nós ateus que não oramos para que o mundo se torne um lugar tolerável, ao contrário disto, nos empenhamos em deixar filhos melhores para este mundo e não um mundo melhor para filhos maus. Pobre de nós ateus, que não temos ajuda de cima, que não somos socorridos por deuses, que não somos protegidos por um criador, que vivemos na angustia, aguentando calado a náusea causada pelo enfrentamento da realidade.

Pobre de nós ateus, que olhamos para o céu e só vemos o negro do espaço disfarçado de azul pelas muitas camadas de atmosfera, não olhamos além disso, não esperamos ser notados nem amparados em meio aos conflitos sociais e existenciais, estamos sós, e sós permaneceremos sempre... pobre de nós ateus que não temos alma nem espírito, que não possuímos a pneuma divina em nosso interior, que nos garantirá a vida eterna ao lado do criador se bom formos.

Pobre de nós ateus, que não nos prendemos a histórias antigas, daquelas que as crianças fantasiam e acabam por usá-las como válvula de escape para seus medos interiores. Pobre de nós, que não conhecemos os mistérios do reino, que não temos sobre nós o sangue do cordeiro, que seremos atirados no lago de fogo e enxofre, apenas para satisfazer os caprichos desse deus mesquinho, apático e mimado chamado Jeová. 

Pobre de nós ateus, que desejamos que todos vivam, e vivam com abundância, enquanto que para nós é desejado apenas a morte... a pior delas, a saber, a morte da alma. Pobre de nós ateus que já ardemos em fogueiras "santas", queimados como hereges... mal sabendo eles que os hereges são todos aqueles que acendem a pira e contemplam as chamas lamberem a carne do incrédulo. Pobre de nós ateus que não cremos em nada e mesmo assim somos chamados de filhos do demônio, decepcionados, frustrados e carentes de uma experiência verdadeira de fé. Será que eles não percebem que o "demônio" aplaude e faz festa ao ver um irmão condenar o outro ao "inferno"?

 
Pobre de nós ateus, quando vemos que a loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado ateu, exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessasse, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar os pobres ateus.

Pobres, sim, somos pobres ateus, mas não apreciem estas linhas com o lamentos, e sim como regozijo, pois são justamente estes pobres ateus que experimentarão as maravilhas do mundo, que errarão tentando acertar, que perder-se-ão buscando novos caminhos, que perguntarão e não obterão respostas, e essas dúvidas serão o combustível que os levarão a entender que não possuem a verdade de nossa existência, que não se conformarão com o mal deste mundo, mas antes, se transformarão pela renovação constante de seu entendimento, experimentando assim, a boa, perfeita e agradável vontade da natureza  humana.

Enfim...

Pobre de nós ateus que não temos crise de consciência (mentira, temos sim), somos ateus, e eu pelo menos, pregarei o ateísmo até que a matéria orgânica que me compõe exaura suas energias, fato conhecido como morte. Morrerei negando a existência de qualquer tipo de deus. Nego-me a desperdiçar minha última palavra com algo que não seja um alto e sonoro: "Deus não existe".  Aliás...consciência? O que é isto senão uma maneira mais educada, e polida para disfarçar a palavra...covardia.

Noreda Somu Tossan

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Eu ainda faço minhas escolhas


Não me tirem as lembranças, pois elas são o combustível que faz meu coração bater. Não me tirem a dor, pois ela é o parâmetro para que eu possa avaliar minha saúde. Não me tirem a tristeza, pois somente com ela eu consigo lembrar-me de como fui feliz. Não me tirem a escuridão, porque aos poucos meus olhos desprezarão a luz.

Não me tirem a fome, para que eu não reclame do pouco que ainda tenho. Não me tirem a pobreza, pois certamente eu desprezaria o miserável. Não me façam elogios, para que o orgulho não me domine. Não deixem de me abraçar, para que a frieza não tome o lugar do calor humano.

Não me falem sempre a verdade, porque algumas mentiras nos mantêm amigos. Não me mostrem tudo, para que eu não perca a vontade de descobrir coisas novas. Não me tirem a insônia, porque dormindo eu não vejo a vida passar. Não afastem a morte de mim, porque é eminência de sua chegada que me deixa com sede de viver mais um dia.

Não furtem meus livros, porque às vezes eles são meus únicos companheiros. Não se esqueçam de mim, para que, uma vez morto, eu não deixe de existir. Não me amem demais, para que a insegurança não atormente tua alma. Não me amem de menos, para que eu não me sinta tão rejeitado.

Não tirem meus filhos, porque eu os amo muitíssimo. Não se apeguem demais às pessoas, para que quando elas se forem, você também não se vá. Não me deixem envelhecer além do necessário, para que eu não me sinta um total inútil. Não me mantenha vivo, se acaso tornar-me um peso em suas vidas.

Não se enganem comigo, pois posso não ser a pessoa que imaginam que eu seja. Não se entristeçam se um dia descobrirem que os enganei, porque eu só quis fazer o bem, escolhendo uma mentira que salva a uma verdade que destrói. Não pensem que não percebe quando estou sendo enganado, pois sei que algumas verdades são tão preciosas que devem ser escondidas até com as maiores mentiras.

Odeiem-me, e depois de me conhecer melhor, talvez me amem. É melhor do que me amarem, e ao saber como sou verdadeiramente, me odeiem. Porque sabemos quão maravilhosas são as pessoas que não conhecemos intimamente. Não se encantem com meu jeito engraçado, pois por traz deste rosto alegre, pode existir um coração triste, uma mente confusa e um ser miserável e mau.

Não gastem sua saúde buscando dinheiro demais, pois lá na frente, olhará para trás e verá que nada fez, e que é um velho, doente e solitário. Então gastará a fortuna acumulada em busca de saúde, amigos e paz. Mas não encontrará. Sentará e rirá de suas próprias tolices.

Não viva pensando no futuro, vivendo uma época que ainda não existe, pois certamente, ao chegar lá, começará a saborear apenas os sonhos do passado, então entenderá que deveria ter aproveitado mais o presente, amado quem estava ao seu lado e experimentado os prazeres da juventude.

E para terminar este testamento, feito numa época em que minhas saúde mental ainda não havia me abandonado, digo: Não sintam-se culpados por coisa alguma, porque todas essas escolhas foram minhas...não suas.

Edson Moura


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